Europa adota pragmatismo cauteloso com Pequim sob pressão de Trump

04 de fevereiro de 2026 6 minutos
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O relacionamento entre a União Europeia e a China atravessa um período de pragmatismo cauteloso, no qual a diplomacia europeia busca conter danos sem provocar rupturas. A postura reflete as lições amargas de 2025, quando Bruxelas descobriu, da pior forma possível, os limites de sua estratégia de redução de riscos diante de um parceiro comercial que não hesita em usar sua posição dominante como arma geopolítica.

Nos últimos dois meses, uma sequência de líderes europeus percorreu o caminho até a capital chinesa. Emmanuel Macron, Micheál Martin, Petteri Orpo e Keir Starmer fizeram a viagem em busca de maior acesso ao mercado chinês. Friedrich Merz, chanceler alemão, deve viajar a Pequim entre 24 e 27 de fevereiro, segundo múltiplos meios de comunicação alemães. As visitas coincidem com o aumento das tensões transatlânticas provocadas pela política errática de Donald Trump.

Xi Jinping tem aproveitado a fratura na aliança ocidental para apresentar seu país como defensor do multilateralismo. Trump já alertou que considera “muito perigoso” as visitas à China. Para a União Europeia, o ato de equilíbrio é arriscado: por um lado, o bloco busca novos mercados para compensar a tarifa de 15% acordada com Trump; por outro, luta para conter um déficit comercial crescente com Pequim.

Superávit chinês quebra recordes

O déficit comercial da UE com a China atingiu €305,8 bilhões em 2024, superando os €297 bilhões de 2023, segundo dados oficiais da Comissão Europeia divulgados em fevereiro. Pequim encerrou 2025 com um superávit comercial de quase US$ 1,2 trilhão, o maior já registrado por uma nação na história moderna. O número pode ter influenciado o discurso contundente de Macron em Davos no mês passado, quando denunciou a China pelo “enorme excesso de capacidade e práticas de distorção” que ameaçam setores industriais inteiros.

A partir da pandemia de covid-19, que expôs a dependência do bloco em relação aos produtos chineses, os líderes europeus adotaram uma postura mais assertiva em relação a Pequim. A postura endureceu após a invasão russa da Ucrânia, quando Xi Jinping reafirmou a parceria “sem limites” com Vladimir Putin. O fato de as sanções ocidentais serem contornadas através do território chinês tornou-se um grande problema.

A crise das terras raras

Diante das tensões elevadas, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, cunhou o termo “de-risking” para reduzir vulnerabilidades de segurança com a China e lançou investigações sobre produtos chineses suspeitos de concorrência desleal, principalmente veículos elétricos. A administração Biden apoiou as medidas.

A reeleição de Trump mudou tudo. Os líderes europeus suavizaram a retórica sobre a China e alimentaram especulações de um reinício diplomático. “Continuamos empenhados em aprofundar a nossa parceria com a China”, afirmou von der Leyen em maio. As esperanças foram frustradas quando Pequim impôs restrições rigorosas às exportações de terras raras, elementos cruciais para tecnologias avançadas. O país controla cerca de 60% da produção mundial e 90% da capacidade de transformação.

As restrições paralisaram a indústria europeia, com fábricas limitando horários de trabalho e atrasando encomendas. Von der Leyen criticou Pequim pelo “padrão de domínio, dependência e chantagem”. A chefe da Comissão viajou a Pequim em julho para uma cúpula que produziu um avanço preliminar. O acordo foi desfeito em outubro, quando Pequim ampliou os controles sobre as terras raras.

A Comissão absteve-se de responder. O Instrumento Anti-Coerção da UE, a “bazuca comercial” concebida pensando na China, nunca foi colocado em discussão séria. À margem, os europeus assistiram ao acordo entre Trump e Xi para suspender as restrições, beneficiando todos os países.

Pragmatismo forçado

A disputa sobre terras raras deixou os europeus com a consciência amarga de que, apesar de toda a conversa sobre redução de riscos, continuarão vulneráveis no futuro próximo. Os dirigentes chineses mostraram disposição para ativar e desativar restrições conforme seus objetivos de política externa, o que levanta sérias preocupações sobre uso como arma.

A perspectiva de novos controles diminuiu a determinação de Bruxelas em travar novas lutas com Pequim, pelo menos por enquanto. No Fórum Econômico Mundial de Davos deste ano, von der Leyen fez apenas uma referência à China em seu discurso principal, contraste notável com sua intervenção em 2025, que dedicou uma seção inteira ao que chamou de “segundo choque chinês”.

A mesma circunspeção marcou a recente rodada de visitas europeias a Pequim, com dirigentes acompanhados por representantes de empresas colocando questões políticas em segundo plano.

Segundo Alicia García-Herrero, do think tank Bruegel, esses compromissos devem ser entendidos no contexto provocado por Trump. “Todo mundo está indo para a China porque tem medo dos EUA”, disse. “Apesar das críticas de Trump, os europeus não estão prontos para pular para a China, porque continuam a pensar que a China é a mesma coisa de sempre: apoiar a Rússia, não fazer nada em relação ao excesso de capacidade industrial e impor controles de exportação.”

As visitas consecutivas realçam uma característica fundamental das relações UE-China: a desunião. Como os 27 Estados-membros não conseguem chegar a acordo, cada um conduz a diplomacia numa base bilateral.

Novas tensões comerciais surgiram no final de 2025, quando a China anunciou tarifas de até 42,7% sobre produtos lácteos da UE. Porém, em fevereiro de 2026, Pequim cortou as tarifas para máximo de 11,7%, segundo o Dairy Reporter, sugerindo possível desescalada. Na próxima rodada de sanções contra a Rússia, a Comissão deve colocar na lista negra mais entidades chinesas acusadas de evasão.

Depois dos altos e baixos de 2025, a Europa em 2026 busca reforçar sua segurança econômica sem “balançar demais o barco”, segundo Alicja Bachulska, do Conselho Europeu de Relações Externas. “Os europeus parecem paralisados diante dos desafios que emanam tanto de Pequim como de Washington. Enquanto isso, a inação face a Pequim também terá custos, como a desindustrialização progressiva.”

 

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