China busca aproximação com Irlanda de olho em relações com União Europeia

07 de janeiro de 2026 4 minutos
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A primeira visita oficial de um líder irlandês a Pequim em 14 anos expõe estratégia chinesa de diálogo bilateral enquanto tensões com Bruxelas permanecem congeladas

Pequim intensifica sua ofensiva diplomática na Europa por meio de acordos bilaterais, e a visita do primeiro-ministro irlandês Micheal Martin à China nesta semana ilustra essa estratégia em ação. No encontro com o presidente Xi Jinping realizado segunda-feira no Grande Salão do Povo, Xi sinalizou que a China está disposta a intensificar a cooperação econômica e comercial com a Irlanda em áreas como inteligência artificial, economia digital e produtos farmacêuticos, ao mesmo tempo em que utilizou o diálogo para enviar recados a Bruxelas.

A escolha da Irlanda como interlocutora não é casual. O país assume a presidência rotativa do Conselho da União Europeia no segundo semestre deste ano, momento que Pequim considera estratégico para reposicionar suas relações com o bloco europeu. Durante o encontro, Xi destacou que China e União Europeia devem manter uma perspectiva de longo prazo e buscar cooperação mutuamente benéfica.

A visita de Martin ocorre em um contexto de crescente atrito comercial entre China e União Europeia. Duas semanas antes do encontro, Pequim anunciou tarifas provisórias de até 42,7% sobre produtos lácteos da UE, medida amplamente vista como retaliação às tarifas europeias sobre veículos elétricos chineses impostas em outubro de 2024.

Para a Irlanda, o timing é particularmente delicado. O país é um dos maiores exportadores de laticínios da Europa, com embarques anuais que somam cerca de 6 bilhões de euros. A indústria láctea irlandesa exporta mais de 90% de sua produção, tornando-se especialmente vulnerável a barreiras comerciais. Além disso, as exportações de carne bovina irlandesa para a China estão suspensas desde 2024 após um caso de doença da vaca louca.

Durante as conversas, Martin levantou especificamente a questão das tarifas lácteas e das exportações de carne bovina, e Xi se comprometeu a dialogar com autoridades chinesas sobre esses temas. O primeiro-ministro irlandês descreveu o encontro como “caloroso e construtivo”, enfatizando a defesa irlandesa pelo comércio aberto e pelo reconhecimento da interdependência global.

A estratégia chinesa de engajamento bilateral com países europeus reflete uma resposta pragmática ao esfriamento das relações com Bruxelas. No final de 2025, o presidente francês Emmanuel Macron e o rei Felipe VI da Espanha realizaram visitas separadas à China, sinalizando que Pequim mantém canais de diálogo com capitais europeias mesmo quando as negociações com a Comissão Europeia permanecem travadas.

A China é o maior parceiro comercial da Irlanda na Ásia e o quinto maior globalmente, com o comércio bilateral atingindo 36 bilhões de euros em 2023. Os principais impulsionadores das exportações irlandesas incluem equipamentos médicos, produtos farmacêuticos, serviços de informática e produtos agroalimentares.

A escalada tarifária entre China e União Europeia começou em 2023, quando a Comissão Europeia lançou uma investigação antissubsídio sobre veículos elétricos chineses. Desde então, Pequim impôs medidas sobre importações de conhaque, carne suína e agora laticínios da UE. A Irlanda votou a favor das tarifas sobre veículos elétricos chineses, o que pode ter contribuído para sua inclusão nas investigações sobre subsídios agrícolas.

A visita de Martin, que se estende até quinta-feira com agenda em Xangai, representa uma tentativa de reequilibrar interesses comerciais nacionais com os compromissos europeus. O desafio para Dublin será manter autonomia nas negociações comerciais sem fragilizar a posição conjunta da União Europeia nas disputas com Pequim, um dilema que outros países europeus enfrentarão à medida que a China intensificar sua diplomacia bilateral no continente.

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