
Não foi dessa vez.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, informou aos líderes da União Europeia que tomou a decisão de adiar a assinatura do acordo comercial com o Mercosul até janeiro. A decisão representa mais um revés para um tratado que começou a ser negociado há 26 anos e frustra especialmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia transformado a conclusão do acordo numa prioridade política.
O cronograma previa que Ursula von der Leyen e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, viajariam para o Brasil nesta sexta-feira para participar da cerimônia de assinatura no sábado, em Foz do Iguaçu. O voo estava confirmado, as reservas de hotel também e a equipe precursora já estava em solo brasileiro. Tudo foi cancelado.
A mudança de posição italiana
O adiamento começou a se tornar realidade após uma mudança crucial de posição da Itália. A primeira-ministra Giorgia Meloni, que até recentemente se mostrava discretamente simpática ao acordo, passou a postular pelo adiamento, somando-se à tradicional objeção francesa. Lula telefonou para Meloni nesta quinta-feira numa tentativa de última hora de reverter a situação. Ela pediu mais tempo, talvez algumas semanas até janeiro, para supostamente convencer o setor agrícola italiano de que estaria protegido e sujeito às mesmas regras dos demais competidores.
A aritmética política na União Europeia tornou-se insuperável. Para aprovar o acordo no âmbito do Conselho são necessários votos favoráveis de 15 países que representem ao menos 65% da população europeia. Para bloqueá-lo, basta que países representando 35% da população votem contra. França, Itália, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda somam esse percentual com folga.
A frustração brasileira
Para o governo brasileiro, o adiamento representa um golpe político significativo. A data e o local da Cúpula de Líderes do Mercosul, que será realizada no sábado em Foz do Iguaçu, chegou a ser alterada pelo menos três vezes para contemplar a cerimônia de assinatura. O encontro, que deveria celebrar um marco histórico, foi esvaziado de sua pauta principal.
Lula havia dito anteriormente que desistiria de tentar alcançar a formalização do acordo durante seu governo se os europeus não cumprissem o combinado. Posteriormente, moderou o tom e afirmou que levaria o assunto aos demais presidentes do Mercosul durante a reunião de sábado para decidir os próximos passos.
O fracasso vai ofuscar o encontro dos presidentes sul-americanos justamente numa pauta que une os países, num momento em que governos locais vivem choques políticos e divergem sobre os rumos do bloco.
As incertezas de janeiro
Janeiro traz seus próprios desafios. O Paraguai assume a presidência rotativa do Mercosul e não demonstra o mesmo entusiasmo que o Brasil pelo acordo. Do lado europeu, Chipre e depois a Irlanda (seis meses cada um) assumirão a presidência rotativa da UE, e não está claro se priorizarão o tratado da mesma forma que a Dinamarca, atual detentora do posto.
O chanceler alemão Friedrich Merz alertou que o status global da UE seria prejudicado por um adiamento ou cancelamento. Autoridades europeias manifestaram preocupação de que, se o acordo não for assinado em breve, corre-se o risco de perder anos de trabalho.
O adiamento não é necessariamente o fim do acordo, mas tampouco garante sua conclusão. Muito dependerá da capacidade da Comissão Europeia de construir consenso nos próximos meses e de convencer países relutantes de que as salvaguardas propostas são suficientes.






