
Os líderes da União Europeia se reúnem nesta quinta-feira no castelo de Alden Biesen, na Bélgica, em um encontro informal que busca transformar em ações concretas as recomendações sobre competitividade feitas há mais de um ano pelo ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi. A presença do economista italiano, ao lado do ex-premiê Enrico Letta, visa reacender a urgência de reformas que ainda avançam de forma tímida no bloco.
O encontro, convocado pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, acontece em um momento crítico. Apenas 11% das 383 recomendações do relatório Draghi foram totalmente implementadas no primeiro ano, segundo levantamento do think tank European Policy Innovation Council. O número contrasta com a importância que a própria Comissão Europeia atribui ao documento, tratado como “bússola econômica” do bloco.
O relatório de Draghi, divulgado em setembro de 2024, diagnosticou a necessidade de investimentos adicionais de 750 a 800 bilhões de euros por ano -equivalentes a cerca de 4,5% do PIB comunitário – para enfrentar os desafios de inovação, descarbonização e dependências estratégicas. A proposta central defende uma integração mais profunda dos mercados de capitais europeus e financiamento conjunto para grandes projetos de interesse comum, como segurança e defesa.
No entanto, a implementação dessas ideias esbarra em barreiras políticas e estruturais. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem priorizado a simplificação regulatória e a redução da burocracia, mas analistas questionam se essas medidas são suficientes para as transformações propostas por Draghi e Letta.
Em carta enviada aos líderes na segunda-feira, von der Leyen sugeriu que países dispostos a avançar em matérias econômicas poderiam formar coalizões menores caso a unanimidade não seja alcançada, sinalizando uma possível “Europa a duas velocidades” em áreas como a integração dos mercados financeiros. A proposta recorre ao mecanismo de cooperação reforçada previsto nos tratados da UE, que permite que no mínimo nove países aprofundem a integração em determinados setores sem a participação de todos os 27 membros.
A ideia de uma Europa a duas velocidades, embora prevista nos tratados, permanece controversa. Von der Leyen destacou nesta quarta que a UE possui 27 sistemas financeiros diferentes, cada um com seu próprio supervisor, além de mais de 300 plataformas de negociação, enquanto os Estados Unidos operam com um único sistema financeiro. A fragmentação, segundo ela, dificulta a competitividade europeia em setores estratégicos como inteligência artificial e tecnologias disruptivas.
O formato de retiro adotado por Costa permite discussões mais abertas, sem as formalidades e a busca por consenso unânime que caracterizam as cúpulas tradicionais. No ano passado, esse formato foi usado para debater segurança e defesa com a presença do secretário-geral da OTAN e do primeiro-ministro britânico. Agora, a presença de Draghi e Letta busca conferir peso político às discussões sobre o mercado único e competitividade.
O encontro acontece enquanto o bloco enfrenta pressão crescente diante da rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China. A UE, maior bloco comercial do mundo em bens e serviços combinados, com 15,8% do comércio global em 2024, busca reduzir dependências externas e fortalecer sua base industrial sem perder de vista os objetivos climáticos.
Entre as propostas em discussão está a “preferência europeia” em setores estratégicos, que priorizaria empresas, produtos e investimentos do bloco. A ideia, defendida por países como França e Alemanha, busca fortalecer a resiliência econômica europeia, mas levanta preocupações sobre protecionismo e possíveis violações das regras comerciais internacionais.
Para Draghi, a solução passa por um “federalismo pragmático” que permita à Europa agir como uma verdadeira união em áreas críticas. Sua defesa de emissão conjunta de dívida para financiar projetos de interesse comum, como infraestrutura energética e defesa, permanece como uma das propostas mais polêmicas, esbarrando na resistência de países do norte europeu a novos mecanismos de mutualização de dívidas.
O desafio central do encontro é traduzir diagnósticos amplamente aceitos em compromissos concretos com prazos definidos. Von der Leyen já sinalizou que pretende propor aos líderes, em uma cúpula em março, um roteiro conjunto para o mercado único até 2028, com cronograma claro de implementação.
A questão que permanece é se a presença de Draghi será suficiente para vencer as resistências políticas e acelerar reformas que, por ora, avançam em ritmo insuficiente para as ambições de competitividade que o bloco se propôs a alcançar.






