
Na última segunda-feira (26), durante discurso no Parlamento Europeu em Bruxelas, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, fez um alerta aos líderes do continente: “Se alguém aqui pensa que a União Europeia pode se defender sem os Estados Unidos, continue sonhando”.
O tom de Rutte reflete a situação atual. Nas últimas semanas, declarações do presidente americano Donald Trump colocaram em questão os fundamentos da aliança militar que manteve a paz na Europa por quase oito décadas. Suas ameaças de tomar a Groenlândia da Dinamarca, que é um membro pleno da Otan, geraram uma crise institucional que há muito tempo não se via.
Criada em 1949, a OTAN tem como base o princípio de que todos os membros devem defender qualquer aliado sob ataque. Essa garantia, especialmente a americana, permitiu que países europeus investissem menos em defesa durante décadas.
Trump já havia questionado repetidamente a utilidade da aliança e rejeitado as obrigações de defesa mútua dos Estados Unidos. Mas as ameaças contra a Groenlândia representaram uma mudança de patamar. “Os aliados europeus passaram do medo do abandono dos EUA para o medo da hostilidade dos EUA”, afirmou Steven Everts, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da UE em Paris.
Antes mesmo das ameaças sobre a Groenlândia, os países europeus já sentiam sinais de que a administração Trump descredibilizaria o tratado de modo definitivo. Pete Hegseth, secretário de defesa dos EUA, pediu no ano passado que os aliados europeus assumissem “a responsabilidade primária pela defesa convencional da Europa”.
A estratégia de defesa nacional dos EUA, publicada na semana passada, descreveu a ameaça russa ao lado oriental da Otan como “controlável”. O Pentágono, segundo o documento, “calibraria a postura e atividades das forças dos EUA no continente europeu para melhor contabilizar a ameaça russa aos interesses americanos, bem como a capacidade de defesa dos países aliados”.
O Financial Times revelou que diplomatas europeus nos EUA já falavam em uma transição de responsabilidades total até 2027. Isso quer dizer que os europeus teriam de construir sozinhos sua própria capacidade nuclear, exigindo investimentos que hoje não estão disponíveis.
Em uma cúpula de líderes da UE na última semana, os 27 países-membros concordaram com uma redução sistemática das dependências dos EUA no médio e longo prazo. No entanto, os líderes permaneceram divididos sobre o melhor a fazer nos três anos restantes do mandato de Trump. As capitais europeias têm posições diferentes sobre quanto e quão rápido deveriam reduzir a dependência do guarda-chuva de segurança americano.
O Reino Unido enfrenta um dilema particular, dados seus laços militares e de inteligência com Washington e sua dependência dos EUA para manter seu dissuasor nuclear. A França, por outro lado, possui arsenal nuclear próprio e tradição de autonomia em defesa; Emmanuel Macron declarou a aliança “em morte cerebral” já em 2019, embora agora tenha mais cuidado em não questionar sua importância.
Repensar os arranjos de segurança na Europa permanece um tema delicado nos círculos oficiais. Há o receio de que debates públicos sobre alternativas à Otan possam provocar Trump a abandonar completamente a aliança ou encorajar o presidente russo Vladimir Putin a explorar a fraqueza percebida.
A Europa se vê entre dois fogos. De um lado, enfrenta a ameaça russa no leste — Putin continua em guerra na Ucrânia e a pressão sobre os países bálticos e a Polônia permanece. Do outro, não pode mais contar com a certeza da proteção americana que sustentou sua segurança por 77 anos.
A declaração de Rutte no Parlamento Europeu resume a realidade: sem os Estados Unidos, a Europa precisaria de uma transformação completa de sua postura de defesa. A questão deixou de ser se essa transformação é desejável. Agora pergunta-se em quanto tempo ela se tornará possível.





