
“Como se pode governar um país que tem 246 tipos de queijo?”, indagou certa vez o ex-presidente Charles de Gaulle, num comentário irônico acerca das complexidades de uma França complexa, multifacetada e frequentemente inflamada quando se trata do debate político.
A frase combina com a França dos dias atuais em que a esquerda busca se reorganizar, o presidente de centro-direita François Macron convive com uma baixa popularidade e sua principal crítica e opositora, de extrema-direita, é fulminada com uma condenação da Justiça quando seu partido gozava do melhor momento dos últimos anos, ganhando votos eleição após eleição.
A decisão judicial desta semana que tornou Marine Le Pen inelegível por cinco anos representa um divisor de águas na política francesa. A líder do partido Reunião Nacional (RN), figura central da extrema direita na França há mais de duas décadas, está formalmente impedida de disputar qualquer cargo público até, pelo menos, 2029. Com isso, fica fora da corrida presidencial de 2027 — uma eleição que, até recentemente, parecia tê-la como protagonista inevitável.
A inelegibilidade decorre de uma condenação por uso indevido de recursos públicos do Parlamento Europeu. Segundo a Justiça francesa, Le Pen e outros membros do RN desviaram mais de € 4 milhões ao empregar assistentes parlamentares em atividades partidárias nacionais, em vez de funções relacionadas ao Parlamento Europeu.
A decisão do tribunal foi especialmente contundente: Le Pen foi condenada a quatro anos de prisão — dois deles em regime fechado com uso de tornozeleira eletrônica —, além de uma multa de € 100 mil (cerca de R$ 624 mil) e, no golpe mais duro, cinco anos de inelegibilidade. Ela deixou a sala antes mesmo que o painel de juízes lesse a sentença. A inelegibilidade é aplicada de forma imediata, embora a prisão e a multa só entrem em vigor após condenação definitiva. Seus advogados anunciaram que irão recorrer, buscando permitir sua candidatura presidencial em 2027. Importante destacar: ela manterá seu atual mandato como deputada.
Embora a líder da direita vá recorrer, o impacto político é imediato. Sem a presença de Le Pen no cenário eleitoral, o caminho se abre para novos nomes dentro do RN — e ninguém desponta com mais força do que Jordan Bardella, presidente do partido e atual eurodeputado. Com apenas 28 anos, Bardella já vinha sendo moldado como sucessor natural de Le Pen. Carismático, midiático e mais palatável a parte do eleitorado jovem, ele agora assume um papel central nos planos da legenda para 2027.
Complexidade adicional num cenário já fragmentado
A decisão da Justiça francesa lança uma nova camada de incerteza sobre o futuro político do país. Com Emmanuel Macron impedido constitucionalmente de buscar um terceiro mandato e sua base centrista enfrentando crescente desgaste, o campo político está aberto e volátil. O vácuo deixado por Le Pen pode tanto fortalecer o Reunião Nacional — se Bardella consolidar sua liderança — quanto fragmentar a direita, abrindo espaço para candidaturas alternativas, mais radicais ou mais moderadas.
A decisão judicial amplia uma tendência já observada: a fragmentação do espectro político francês. A esquerda segue dividida e sem liderança nacional forte. O centro, representado pelo macronismo, tenta sobreviver em meio à perda de apoio e desgaste de imagem. Já a direita tradicional, dos Republicanos, ainda não encontrou uma narrativa convincente para se reposicionar frente ao avanço populista do RN.
O resultado pode ser um cenário com múltiplos candidatos disputando a atenção de um eleitorado descrente — o que favorece rupturas ou surpresas eleitorais.
A exclusão de Le Pen da corrida presidencial tem também um peso simbólico. Ela foi, por três vezes, finalista nas eleições presidenciais (2012, 2017 e 2022) e contribuiu para normalizar o discurso da extrema direita na política francesa, retirando parte do estigma associado ao antigo partido fundado por seu pai, Jean-Marie Le Pen.
Não à toa, a reação da bancada do RN no Parlamento foi imediata: acusações de perseguição política e ameaças de obstrução legislativa. Deputados da legenda afirmam que se trata de uma tentativa de calar a principal voz da oposição. Parte da imprensa conservadora ecoa esse discurso, enquanto outros analistas destacam que o processo tem base legal robusta e reflete um esforço europeu mais amplo de endurecimento contra práticas irregulares com verbas públicas.
Le Pen, por sua vez, declarou tratar-se de uma “decisão política”, com o objetivo de tirá-la da disputa presidencial. Seu partido convocou protestos contra o que classificou como “ditadura dos juízes”, num tom que radicaliza ainda mais o discurso em torno do Judiciário e das instituições democráticas francesas.
Num momento em que a Europa tenta se afirmar frente a desafios externos — especialmente a guerra na Ucrânia e o avanço de forças populistas no continente —, a reconfiguração da direita francesa é observada com atenção. Macron, embora enfraquecido internamente, ainda exerce protagonismo nas negociações com a Alemanha e na construção de uma resposta europeia coordenada à Rússia. A ausência de Le Pen, que por vezes se posicionou de forma ambígua em relação a Moscou, pode alterar os equilíbrios tanto domésticos quanto no Parlamento Europeu.
Para o continente, a ascensão de Bardella será um teste. Ele herda a máquina eleitoral do RN, mas precisará provar capacidade de articulação nacional e internacional em um cenário mais polarizado e desconfiado de soluções fáceis. A sua imagem de político jovem e moderno contrasta com as raízes ideológicas do partido, e será observado de perto por aliados e adversários.
A política francesa entra agora numa nova fase. Le Pen, três vezes candidata à presidência e presença constante em debates eleitorais desde os anos 2000, sai de cena — ao menos temporariamente. Se o partido conseguir transferir sua popularidade a Bardella, poderá manter o ímpeto rumo ao poder. Caso contrário, abre-se uma janela para a reorganização de forças tanto na direita quanto no centro e na esquerda.
A França, em plena transição política e social, segue como terreno fértil para reviravoltas. A inelegibilidade de Le Pen pode ser o fim de uma era — ou apenas o início de outra, ainda mais imprevisível.