França arranca vinhas para combater crise histórica no setor vinícola

23 de fevereiro de 2026 3 minutos
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O governo francês, com o apoio do presidente Emmanuel Macron, iniciou um programa drástico para arrancar milhares de hectares de vinhedos como resposta a uma profunda crise de superprodução que ameaça a estabilidade de um dos setores mais emblemáticos do país. A medida, embora dolorosa, é vista como essencial para reequilibrar a oferta e a procura, num mercado transformado por novas tendências de consumo e crescentes barreiras comerciais.

O presidente Macron defendeu a iniciativa como uma forma de “preservar o valor” para os produtores que permanecem no mercado, reconhecendo que a viticultura faz parte do “estilo de vida francês”. A crise atual é alimentada por uma combinação de fatores: a queda na demanda por vinhos, especialmente os tintos de menor valor, a concorrência internacional acirrada e as dificuldades de exportação, agravadas por disputas comerciais.

As raízes de uma crise estrutural

A indústria vinícola francesa enfrenta um excedente estimado em cerca de 100.000 hectares, segundo o grupo profissional CNAOC. Esta sobreoferta é o resultado de uma mudança estrutural no consumo. A demanda por vinhos tintos mais baratos diminuiu, enquanto cresce o interesse por vinhos brancos, rosés e, notavelmente, por bebidas com baixo ou nenhum teor alcoólico.

Além das mudanças de hábito, o setor foi duramente atingido pela imposição de tarifas de 15% sobre bebidas alcoólicas europeias pelo governo de Donald Trump em 2025. Como resultado, as exportações para os Estados Unidos, o principal mercado para o vinho francês, caíram 20% no ano passado, totalizando € 3,2 bilhões.

Para enfrentar o problema, o governo lançou um fundo de € 130 milhões que subsidia os viticultores que optarem por erradicar permanentemente suas vinhas. O programa, que começou a operar em 6 de fevereiro de 2026, visa remover cerca de 30.000 hectares, com foco em regiões produtoras de vinhos tintos de menor valor, como Bordeaux e Languedoc.

Detalhes do Programa de Erradicação de Vinhas (2026):

  • Orçamento Total: € 130 milhões
  • Subsídio por Hectare: € 4.000 (padrão)
  • Bônus (Região de Cognac): + € 6.000 (totalizando € 10.000)
  • Meta de Remoção: ~30.000 hectares
  • Condição Principal: Perda permanente dos direitos de replantio por 10 anos

Esta não é a primeira vez que a França recorre a medidas extremas. Em anos anteriores, o excedente de vinho foi subsidiado para ser destilado em álcool industrial. Em 2024, um programa semelhante, com um orçamento de € 120 milhões, já havia levado à remoção de 25.500 hectares.

Enquanto implementa medidas de curto prazo, o governo francês também busca soluções a longo prazo. O presidente Macron destacou a necessidade de “sair e conquistar novos mercados”, citando o potencial da Índia, Canadá e Brasil, países abrangidos por recentes acordos de livre comércio da União Europeia.

A reestruturação forçada visa não apenas reduzir a produção, mas também adaptar a indústria a um novo cenário global. A aposta é que, ao diminuir a quantidade, os produtores restantes possam garantir melhores preços e sustentar um setor que emprega 600.000 pessoas e gera uma receita anual de aproximadamente € 32 bilhões, metade da qual proveniente das exportações.

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