Alemanha ajusta estratégia humanitária mantendo foco em três regiões prioritárias

30 de dezembro de 2025 5 minutos
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A Alemanha mantém sua posição como uma das principais doadoras de ajuda humanitária do mundo, com uma estratégia que busca equilibrar compromissos globais e novas prioridades de segurança. Até o final de julho de 2025, o país havia destinado 889,3 milhões de dólares para projetos humanitários, além de contribuições aos esforços conjuntos da União Europeia.

O governo alemão opera através de uma estratégia publicada em setembro de 2024 pelo Ministério das Relações Exteriores, que define diretrizes para manter a eficiência da assistência humanitária em um contexto de múltiplas crises globais. O país reduziu seu orçamento humanitário de 2,25 bilhões de euros no ano anterior para cerca de 1 bilhão de euros em 2025, refletindo um realinhamento de recursos que inclui maiores investimentos em defesa, em linha com compromissos da Otan.

Três frentes de atuação

A ajuda alemã concentra-se atualmente em três regiões críticas. No Oriente Médio, cerca de 335 milhões de euros foram disponibilizados desde outubro de 2023 para assistir populações nos territórios palestinos ocupados, particularmente em Gaza. Em julho, o chanceler Friedrich Merz afirmou que a situação na Faixa de Gaza havia se tornado inaceitável, pressionando por cessar-fogo e assistência humanitária abrangente. As ações alemãs incluem fornecimento de alimentos, atendimento médico, abrigo e desminagem humanitária na região.

Na Europa, o apoio à Ucrânia permanece prioritário. Durante a Conferência de Recuperação da Ucrânia em Roma, em julho, Merz enfatizou que a reconstrução do país não pode aguardar o fim do conflito. “Reconstruir a Ucrânia não é apenas uma questão futura. Não pode esperar até que as armas silenciem”, declarou o chanceler. A assistência alemã combina ajuda humanitária, apoio à infraestrutura e programas de reconstrução.

Aproximadamente um terço dos recursos humanitários alemães destina-se a regiões de crise na África que recebem menos atenção midiática. O Sudão representa um dos casos mais significativos. Em outubro, a Alemanha anunciou 16 milhões de euros adicionais em ajuda humanitária, elevando sua contribuição total para a crise sudanesa a 141 milhões de euros. A ministra de Estado Serap Güler, durante visita ao país, destacou a importância de uma solução política duradoura.

No Sudão do Sul, foram disponibilizados 35 milhões de euros em 2025, com projetos focados em segurança alimentar, acesso à água potável e promoção de higiene para prevenir doenças. A Alemanha também mantém programas na República Democrática do Congo, Etiópia, Somália e Chade.

Instrumentos e parcerias

O governo alemão opera por meio de parcerias estratégicas com agências das Nações Unidas, incluindo o Programa Mundial de Alimentos, Unicef e o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), além do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e organizações não-governamentais. As áreas prioritárias abrangem segurança alimentar, saúde, limpeza de minas, abastecimento de água e saneamento.

A estratégia alemã emprega fundos comuns, instrumentos de financiamento conjunto entre múltiplos doadores que permitem respostas rápidas a emergências. Essa abordagem possibilita flexibilidade para atender tanto crises agudas quanto situações que atraem menos atenção pública, permitindo que organizações humanitárias atuem com agilidade.

Entre 2022 e 2024, a Alemanha destinou 7 milhões de euros ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para projetos voltados à promoção da saúde sexual e reprodutiva e à prevenção da violência de gênero. A proteção contra violência sexual e baseada em gênero constitui um eixo transversal das operações humanitárias alemãs, com foco em trabalhos de prevenção e acesso a apoio médico, psicossocial e jurídico para sobreviventes.

Além de projetos de longo prazo, a Alemanha fornece assistência emergencial em desastres naturais ao redor do mundo, frequentemente coordenada em nível europeu. Na primavera, o país enviou ajuda após o terremoto em Mianmar. O primeiro transporte de socorro da Cruz Vermelha Alemã para o país asiático incluiu 42 toneladas de materiais, com tendas, cobertores, artigos de higiene e kits de ferramentas para auxiliar na reconstrução.

Esse modelo de resposta rápida permite que a Alemanha complemente capacidades locais quando estas se mostram insuficientes diante de catástrofes de grande escala. As missões incluem coordenação com outros países europeus para maximizar a eficiência da ajuda.

Contexto orçamentário

Em novembro, o parlamento alemão aprovou o orçamento federal para 2026, que prevê um acréscimo de 23 milhões de euros no financiamento humanitário em relação a 2025. O ajuste reflete as prioridades orçamentárias do governo em um contexto de múltiplos compromissos internacionais.

A Alemanha, assim como outros países europeus, tem realizado ajustes em suas políticas de ajuda externa enquanto aumenta investimentos em defesa. Essa dinâmica não é exclusiva do país, com vários doadores europeus implementando mudanças similares em suas alocações orçamentárias nos últimos anos.

A estratégia do Ministério das Relações Exteriores enfatiza a busca por eficiência e foco em áreas onde a ação alemã pode gerar maior impacto. O documento reconhece desafios crescentes no cenário humanitário global, incluindo dificuldades de acesso a zonas de conflito e necessidade de proteção para trabalhadores humanitários.

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