A vida de inovação, fortuna e filantropia do sueco Hans Rausing, da Tetra Pak

Ex-controlador da companhia, o empresário que transformou a fabricante de embalagens em uma gigante global morreu na última sexta, aos 93 anos

02 de setembro de 2019 5 minutos
Europeanway

Por mais de quatro décadas, o sueco Hans Rausing comandou a fabricante de embalagens de alimentos e bebidas Tetra Pak. A companhia foi criada por seu pai, Ruben Rausing, mas foi sob a liderança de Hans que ela se transformou em um conglomerado global, que tem hoje mais de 24 mil funcionários e presença em mais de 160 países. Hans, um gigante do universo empresarial da Suécia, morreu na última sexta-feira, aos 93 anos.

O império Tetra Pak começou em uma cozinha em Lund, na Suécia, em 1944, quando Ruben assistia à sua esposa, Elisabeth, fazer salsichas, apertando as pontas. Isso deu a ele a ideia de criar uma bolsa triangular selada que poderia armazenar leite sem a necessidade de refrigeração. Ao lado do cientista Erik Wallenberg, Ruben desenvolveu a ideia ao criar uma caixa retangular de papelão para embalar leite, suco, iogurte e sorvete. "O objetivo era construir uma embalagem à prova de vazamentos sem nenhum processo especial de aperto antes de ser enchida", disse Wallenberg. Ruben comprou a patente e todos os direitos de Wallenberg por valor equivalente, hoje, a R$ 1,5 mil.

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Hans, o segundo dos três filhos do casal, assumiu a direção executiva da empresa em 1954, com Gad, seu irmão mais velho, como seu braço direito. Nascido em Gotemburgo, Hans estudou economia, estatística e russo na Universidade de Lund e depois, assim como seu pai, também foi para os Estados Unidos para complementar sua formação acadêmica. “Ele era extremamente capaz e, como seu pai, obstinado. Ele acreditava ser o vendedor perfeito. Uma vez eu o ouvi dizer que poderia vender ar ou água", disse Wallenberg, segundo registro do jornal britânico The Guardian.

Hans atuou como CEO até 1983, quando, com a morte de seu pai, passou ao posto de presidente do conselho de administração da companhia. Foi durante seu período como principal executivo que a Tetra Pak chegou, por exemplo, à União Soviética, onde se tornou o maior empregador estrangeiro.

A empresa revolucionou o envase de leite, criando um modelo de baixo custo, mais leve e mais higiênico que as garrafas de vidro, que eram o padrão até então. Hoje, 137 bilhões de embalagens Tetra Pak patenteadas são vendidas a cada ano. O faturamento anual da companhia passa hoje de US$ 15 bilhões.

Em 1995, Hans deixou a empresa da família ao vender sua parte a seu irmão Gad por US$ 7 bilhões. Aquele parecia ser um movimento em direção à aposentadoria, mas, em 2001, ele voltou aos negócios ao assumir o controle da EcoLean, empresa sueca fundada em 1996 com uma proposta diferente para a indústria de embalagens: um produto feito à base de carbonato de cálcio (o giz) e gás natural. Essa composição faz dos produtos da EcoLean muito mais facilmente recicláveis que os da Tetra Pak – que, por serem compostos por papel cartão, filmes de polietileno e alumínio, têm um processo de reciclagem mais trabalhoso. 

Avesso à ostentação, aos holofotes e às colunas sociais, assim como seu irmão Gad, Hans chegou a ser descrito pelo jornalista britânico Dominic Lawson como "o Greta Garbo dos negócios". A menção de Lawson era uma referência à atriz sueca que foi uma das maiores estrelas internacionais do cinema entre as décadas de 20 e 30 – e que ficou conhecida também por ser extremamente reservada sobre sua vida pessoal. 

“Eu sou industrial. Eu entendo de máquinas. Eu entendo dessas coisas. Eu não entendo de dinheiro. Não faço ideia de quanto dinheiro eu tenho", declarou Hans certa vez, segundo o Guardian. Na última edição da lista de bilionários da revista Forbes, o patrimônio do empresário foi calculado em US$ 12 bilhões, o que o colocou como a 112ª pessoa mais rica do mundo.

Parte de sua fortuna foi para a filantropia. Segundo a família, desde 1998, suas doações para diferentes iniciativas, incluindo pesquisas médicas, projetos culturais e ambientais, passaram de US$ 1,5 bilhão. A lista incluía um projeto de pesquisa, treinamento e catalogação de informações sobre línguas ameaçadas de extinção, o Hans Rausing Endangered Languages Project. A família tinha histórico no interesse por diferentes idiomas: Hans era fluente em russo e Sven, seu irmão mais novo (que morreu em 2003 e nunca se envolveu com os negócios da Tetra Pak), era linguista. 

Hans Rausing morava em Londres desde 1982. Ele morreu em casa enquanto dormia, segundo comunicado distribuído pela família. Ele deixou a esposa, Märit, três filhos e sete netos.

(Foto: Peter Lyden)

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