
A diplomacia americana intensificou nesta semana sua campanha contra as leis de moderação de conteúdo online na Europa ao anunciar que destinará recursos públicos para apoiar organizações alinhadas com a agenda de “liberdade de expressão” defendida pelo governo Trump no continente.
Sarah Rogers, subsecretária de Estado para Diplomacia Pública, confirmou segunda-feira durante viagem a Dublin, Budapeste, Varsóvia e Munique que seu gabinete possui a capacidade de direcionar financiamento americano por meio de subsídios. “Quero promover a liberdade de expressão nas democracias aliadas ocidentais, e é isso que meus subsídios vão fazer”, declarou Rogers durante painel em Budapeste.
A iniciativa representa um novo capítulo na crescente tensão transatlântica sobre regulação digital. Washington tem criticado veementemente legislações como a Lei de Serviços Digitais da União Europeia e a Lei de Segurança Online britânica, argumentando que elas sufocam o debate público, especialmente sobre imigração, enquanto impõem exigências onerosas às empresas de tecnologia americanas.
De acordo com reportagem do Financial Times, Rogers teria discutido em dezembro com figuras-chave do partido populista britânico Reform UK, liderado por Nigel Farage, a possibilidade de financiar think tanks e organizações de caridade alinhados com os valores do movimento “Make America Great Again”. Segundo fontes ouvidas pelo jornal, o financiamento estaria vinculado às celebrações do 250º aniversário da independência americana, previstas para este ano.
A escalada diplomática vem na esteira de medidas punitivas adotadas por Washington em dezembro. O secretário de Estado Marco Rubio anunciou em 23 de dezembro proibições de visto contra cinco figuras europeias, incluindo o ex-comissário europeu Thierry Breton, acusando-os de pressionar plataformas americanas a censurar conteúdo.
Breton, considerado por Rogers como “mentor” da Lei de Serviços Digitais, tornou-se alvo particular da administração Trump. A legislação que ajudou a criar permite multas de até 6% do faturamento global anual de empresas que descumpram regras sobre conteúdo ilegal ou prejudicial.
A resposta europeia foi imediata e contundente. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que as medidas americanas “equivalem a intimidação e coerção destinadas a minar a soberania digital europeia”, enquanto o ministro das Relações Exteriores francês Jean-Noël Barrot defendeu que a Lei de Serviços Digitais “não tem alcance extraterritorial e não diz respeito de forma alguma aos Estados Unidos”.
Em Bruxelas, autoridades europeias reafirmaram o direito soberano do bloco de regular atividades econômicas em seu território. A Comissão Europeia declarou que “a UE é um mercado único aberto e baseado em regras, com o direito soberano de regular a atividade econômica de acordo com nossos valores democráticos e compromissos internacionais”.
O embate expõe visões diametralmente opostas sobre o papel do Estado na regulação digital. Enquanto a Europa defende que suas leis combatem discurso de ódio e desinformação sem restringir liberdades fundamentais, Washington argumenta que tais normas representam censura disfarçada.
A Estratégia de Segurança Nacional americana, divulgada em dezembro, chegou a afirmar que líderes europeus estavam censurando a liberdade de expressão e suprimindo oposição a políticas de imigração, o que colocaria em risco a “extinção civilizacional” do continente.
A iniciativa de financiamento, porém, gera desconforto mesmo entre potenciais beneficiários. Segundo fontes do Reform UK ouvidas pelo Financial Times, há cautela dentro do partido sobre associação muito próxima com iniciativas alinhadas ao movimento MAGA, dado que Trump possui apenas 16% de aprovação no Reino Unido, contra 81% de desaprovação.
Um porta-voz do Departamento de Estado não confirmou detalhes específicos do financiamento, mas caracterizou o plano como “uso transparente e legal de recursos para promover interesses e valores americanos no exterior”.
A controvérsia ocorre num momento em que a própria administração Trump enfrenta críticas por usar leis de imigração para restringir entrada de pessoas por motivos relacionados a discurso político, prática que alguns analistas consideram contraditória com a retórica de defesa da liberdade de expressão.
Para analistas europeus, a ofensiva americana representa menos uma defesa de princípios universais e mais uma tentativa de enfraquecer regulações que afetam interesses comerciais de gigantes da tecnologia sediados nos Estados Unidos. A batalha promete se intensificar nos próximos meses, testando os limites da aliança transatlântica em tempos de crescente polarização sobre o futuro da governança digital.






