Viena transforma vagas de estacionamento em espaço verde urbano

25 de fevereiro de 2026 3 minutos
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A capital austríaca lidera uma tendência crescente entre cidades europeias: transformar estacionamentos em infraestrutura verde e reduzir a dependência do automóvel por meio de incentivos econômicos e redesenho do espaço público.

O modelo já tem resultados concretos. O uso do carro em Viena caiu 37% em comparação com os anos 1990, e o sistema de estacionamento pago, implementado em toda a cidade e sem exceções, gera €180 milhões por ano, verba reinvestida diretamente em infraestrutura cicloviária. Mais de dois terços dos moradores apoiam a redução de vagas e a criação de mais áreas verdes.

A lógica por trás da medida vai além da arrecadação. Toda superfície impermeabilizada agrava ilhas de calor urbanas, compromete a drenagem durante chuvas intensas e subtrai espaço que poderia ser destinado a moradia, lazer ou vegetação. Em Viena, essa equação começou a ser revertida de forma sistemática: mais de 350 projetos estão em curso para converter vagas em áreas verdes. A Neuer Markt, praça histórica próxima a atrações turísticas relevantes no centro da cidade, deixou de ser um estacionamento a céu aberto para se tornar uma área pedestre com árvores e bancos. Uma das principais artérias do centro foi redesenhada segundo o modelo holandês: 140 vagas cederam lugar a 1,3 quilômetro de ciclovias e vegetação.

A iniciativa também desceu ao nível do bairro. Por meio dos chamados “oásis de vizinhança” (Grätzloasen, em alemão), moradores podem transformar vagas de estacionamento em miniparques urbanos, jardins comunitários ou parques infantis, levando verde a bairros dominados pelo concreto.

Viena não está sozinha. Amsterdam anunciou a eliminação de até 11.200 vagas, cerca de 72% do estacionamento nas ruas do centro, com pesquisas locais calculando que os custos sociais de uma vaga adicional chegam a €270 por permissão por ano. Em Paris, o Plano Climático 2024 a 2030 prevê a remoção de 60.000 vagas e sua substituição por árvores e áreas verdes. O ciclismo já responde por cerca de 11% das viagens na capital francesa, o dobro da participação do carro. Em Barcelona, os “superblocks” transformaram vias antes dominadas por automóveis em jardins e áreas de convivência. Dados da Comissão Europeia indicam que mais de 40% das viagens em Copenhague, Helsinque, Amsterdam e Viena já são feitas a pé ou de bicicleta.

A resistência existe e não deve ser subestimada. Comerciantes temem perdas com a transformação de ruas em áreas exclusivas para pedestres, mas estudos em Bruxelas, Rotterdam e Copenhague mostram que a percepção não se sustenta: apenas uma minoria dos clientes chegava de carro, e as transformações aumentaram a frequência de visitas.

A dimensão política do processo é tão relevante quanto a urbanística. “Precisamos convencer as pessoas. Precisamos perguntar: como você quer o seu bairro, cheio de carros e sem árvores, ou algo diferente?”, diz Ina Homeier, planejadora do Departamento de Desenvolvimento Urbano de Viena. Para acomodar quem depende do carro, a cidade criou estacionamentos park and ride com tarifas diárias acessíveis conectados diretamente ao transporte público. A premissa é clara: não se reduz nada sem oferecer uma alternativa melhor e mais barata.

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