
Depois de quase duas décadas de negociações, a União Europeia e a Índia anunciaram nesta terça-feira (27) a conclusão de um mega-acordo de livre comércio que cria uma zona comercial abrangendo dois bilhões de pessoas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chamou o pacto de “a mãe de todos os acordos” durante sua visita a Nova Delhi.
O acordo europeu-indiano representa cerca de 25% do PIB global e um terço do comércio mundial. A negociação, iniciada em 2007, foi retomada em 2022 após a invasão russa à Ucrânia e ganhou urgência com a política tarifária agressiva do presidente dos EUA, Donald Trump, que impôs tarifas de 50% sobre produtos indianos.
Pelo acordo, a UE eliminará ou reduzirá tarifas sobre 96,6% das exportações para a Índia, economizando cerca de 4 bilhões de euros por ano. Ficarão de fora do acordo produtos agrícolas e laticínios, setores historicamente sensíveis.
As tarifas sobre carros europeus na Índia cairão gradualmente de 110% para 10%, com uma cota de 250 mil veículos por ano; nos vinhos, as tarifas serão reduzidas de 150% para 20-30% e em máquinas, produtos químicos, farmacêuticos e siderúrgicos a eliminação poderá ser total. Em contrapartida, a UE obterá acesso privilegiado aos setores financeiros e de transporte marítimo indianos.
Até os próximos sete anos, a ideia é que produtos indianos intensivos em mão de obra como têxteis, couro, joias, produtos químicos e pescados cheguem ainda mais baratos à Europa.
“A Índia cresceu e a Europa está genuinamente satisfeita com isso, porque quando a Índia tem sucesso, o mundo fica mais estável, próspero e seguro”, declarou von der Leyen durante o anúncio.
A parceria entre europeus e indianos andou mais rápido que o acordo com os sul-americanos porque adotou-se uma estratégia mais pragmática, como explicou Maroš Šefčovič, chefe de comércio da UE: “Retomamos as negociações com uma nova filosofia, sendo muito claros ao dizer: se isso é sensível para você, não vamos tocar nisso.”
Essa abordagem contrastou com o Mercosul, onde os produtos agrícolas — especialmente carne bovina, aves, açúcar e etanol — são justamente os setores mais competitivos e de maior interesse exportador.
Ambos os acordos ganham relevância especial no contexto da política comercial agressiva de Donald Trump. Com tarifas elevadas impostas tanto à Índia quanto ao Brasil, e ameaças constantes aos aliados tradicionais dos EUA, a UE está claramente diversificando suas parcerias comerciais.
Após fechar acordos em 2025 com Indonésia, México e Suíça, a UE demonstra uma aceleração importante em sua agenda comercial. O bloco busca não apenas alternativas econômicas, mas também reafirmar o multilateralismo baseado em regras em mundo cada vez mais fragmentado.
Neste ano, a Índia deve ultrapassar o Japão e se tornar a quarta maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA, China e Alemanha. Para a UE, garantir acesso preferencial a esse mercado em crescimento explosivo é uma vitória estratégica.
A aprovação do acordo indiano pode dificultar a ratificação do acordo com o Mercosul, já que agricultores europeus passarão a enfrentar maior concorrência em múltiplas frentes. O presidente Lula costuma destacar que o acordo Mercosul-UE é “a resposta do multilateralismo ao isolamento” e uma alternativa às “guerras comerciais que segregam economias”. Mas a demora na implementação pode fazer os sul-americanos perderem o momento.






