Três anos de guerra transformam Ucrânia em palco de projetos geopolíticos

25 de fevereiro de 2025 5 minutos
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Após três anos de conflito, a guerra na Ucrânia já não se resume a batalhas territoriais. Ela se tornou cenário de disputas geopolíticas que se estendem para além das fronteiras europeias.

Washington estabeleceu canal direto com Moscou para desenhar aquilo que Donald Trump e Vladimir Putin entendem deva ser o futuro da Ucrânia. E deixaram de fora da mesa de negociações a Europa de forma geral e Kiev, em particular, gerando frustração e a certeza de que chegou ao fim a parceria dos Estados Unidos com o continente, que durava desde o final da Segunda Guerra mundial e garantia diálogo e estabilidade nos dois lados do Atlântico.

Os desdobramentos mais recentes também mostram que os países europeus terão que trabalhar unidos, daqui para a frente, para garantir a segurança de seus próprios territórios, antes protegidos com o apoio dos americanos.

Para aprofundar a discussão sobre o futuro da Ucrânia, Ciro Dias Reis, CEO da Imagem Corporativa, entrevistou Nataliya Popovych, empresária ucraniana e especialista em comunicação internacional. Ativista cívica e fundadora da consultoria One Philosophy e da organização The Resilient Ukraine, ela tem sido uma voz importante na defesa da resistência ucraniana na guerra contra a Rússia. Em 2014, cofundou o Ukraine Crisis Media Center, ONG que combate a desinformação em temas sobre o país.

“O que buscamos não é apenas o fim da guerra, mas uma paz justa”

Nataliya destaca que os últimos três anos foram os mais desafiadores da história recente da Ucrânia. “Ninguém esperava que, no século XXI, testemunharíamos tamanha brutalidade”, afirma. “Mais de 150 mil crimes de guerra foram cometidos pelas forças russas, incluindo assassinatos, estupros, saques e a deportação forçada de milhares de crianças ucranianas. Além da destruição física, a guerra impôs uma nova realidade psicológica e social aos ucranianos”. Segundo  Nataliya, “esses três anos mostraram a incrível resiliência do nosso povo. Mas agora, mais do que resistir, buscamos justiça e uma paz que impeça novas agressões”, ressalta.

Trump e negociações de paz

O formato de um possível acordo para terminar a guerra preocupa a ativista.

“Todos queremos o fim da guerra, mas não podemos aceitar um cessar-fogo que nos obrigue a ceder território e viver sob a constante ameaça de um vizinho nuclear”, alerta.

Ela também menciona a necessidade de garantias de segurança concretas, como a entrada da Ucrânia na OTAN ou proteções equivalentes.

Sua preocupação se justifica, dado o impacto humanitário devastador da guerra. Segundo a Acnur, agência da ONU para refugiados, cerca de 10,5 milhões de pessoas ucranianas foram forçadas a se deslocar. Desse total, 3,7 milhões se movimentaram internamente, no próprio país, em busca de áreas menos vulneráveis às ações militares russas; outros 6,8 milhões de pessoas saíram em busca de proteção em diversas regiões da Europa (estima-se que 4,5 milhões voltaram para casa ao longo dos primeiros meses que se seguiram a invasão do país).

“A guerra só aconteceu porque a Rússia tem um arsenal nuclear e usou isso para chantagear o mundo. Se não tivermos segurança real, o ciclo de agressões não terminará”, afirma Nataliya Popovych.

Reconstrução e o futuro da Ucrânia

As preocupações em relação ao cenário atual não impedem que ela mantenha uma visão otimista sobre a reconstrução do país. “Espero que a Ucrânia receba os recursos necessários para reconstruir tudo o que foi perdido. Claro que ninguém pode devolver as vidas que foram sacrificadas para defender nossa liberdade, mas a economia ucraniana pode se tornar mais forte e sustentável no futuro”, diz.

Estima-se que mais de 80 mil soldados e mais de 12 mil civis ucranianos foram mortos em três anos de guerra. Os feridos ultrapassam 400 mil e cidades inteiras foram destruídas.

O custo da reconstrução é agora estimado em US$ 524 bilhões, segundo levantamento de Banco Mundial, ONU, Comissão Europeia e do próprio governo ucraniano. O valor é 7% maior do que o previsto um ano atrás, e abrange o volume de recursos necessário para recuperar sistemas de transporte e energia; reconstruir habitações destruídas; retomar as atividades normais em diferentes setores, da educação ao comércio.

Existem cerca de US$ 300 bilhões de ativos russos congelados no Ocidente (dos quais mais de US$ 200 bilhões em território europeu) que poderiam ser utilizados para a reconstrução, mas esse número, portanto, não seria suficiente e aportes financeiros adicionais seriam necessários para reerguer o país.

Nataliya Popovych enfatiza a necessidade de reparações de guerra e investimentos internacionais.

“A Ucrânia precisa se tornar um parceiro confiável na economia global, principalmente na exportação de grãos e tecnologia sustentável. E queremos que os milhões de ucranianos que tiveram de deixar o país possam voltar para uma Ucrânia segura, próspera e reconstruída.”

 

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