Quarenta anos em quatro: o ousado plano europeu para se firmar no mercado de semicondutores

Danilo Valeta, Diretor na Imagem Corporativa 09 de janeiro de 2026 5 minutos
shutterstock

A União Europeia decidiu fazer em menos de uma década o que não conseguiu em quarenta anos: voltar a ter peso relevante na produção global de semicondutores. A discussão nasceu ainda durante a pandemia, quando fábricas de automóveis, máquinas industriais e equipamentos médicos ficaram paralisadas pela falta de chips. A crise expôs a dependência de poucas plantas em Taiwan e na Coreia do Sul e de grandes grupos norte-americanos e, em um contexto de rivalidade crescente entre Estados Unidos e China, semicondutores deixaram de ser assunto de nicho tecnológico para se tornar tema de segurança econômica e geopolítica.

Em resposta, a Comissão Europeia lançou o European Chips Act, um pacote regulatório e de incentivos que pretende dobrar a participação do bloco no mercado mundial, hoje em torno de 10%, para 20% até 2030. Ao apresentar o plano, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, descreveu a iniciativa como um “divisor de águas” e cravou a meta política: um quinto da produção global de microchips deve ser feita em solo europeu até o fim da década.

Na prática, o Chips Act se apoia em três pilares. O primeiro é um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento, com linhas-piloto para novos nós tecnológicos, centros de competência e uma plataforma de design aberta a empresas europeias. O segundo é a flexibilização das regras de ajuda estatal, permitindo que países como França e Alemanha ofereçam subsídios bilionários a fábricas modernas, com capacidade para produzir chips avançados. O terceiro é um mecanismo de crise para monitorar a cadeia de suprimentos e coordenar respostas em caso de novos choques de oferta. Somando recursos públicos e privados, Bruxelas estima mobilizar mais de 43 bilhões de euros nos próximos quatro anos para atingir seus objetivos.

Os exemplos mais visíveis dessa política estão em construção. Em Crolles, no sudeste da França, STMicroelectronics e GlobalFoundries erguem uma fábrica de wafers de 300 mm com tecnologia de 18 nanômetros, voltada sobretudo a aplicações automotivas e industriais. O projeto, apoiado por um pacote francês de 7,4 bilhões de euros em auxílios, deve atingir capacidade plena já em 2026 e é tratado em Paris como vitrine do plano France 2030 de reindustrialização. Na Alemanha, em Dresden, a TSMC se associa a Bosch, Infineon e NXP para criar a European Semiconductor Manufacturing Company (ESMC), uma foundry aberta que deverá produzir chips de até 12 nanômetros a partir do fim da década. Embora a operação comercial da ESMC esteja prevista apenas para 2029, 2026 e 2027 serão anos decisivos de obras, instalação de equipamentos e contratação de engenheiros.

Outro eixo da estratégia é reforçar a produção de chamados chips “legado”, menos sofisticados em sua escala nanométrica, mas críticos para automóveis, maquinário industrial e internet das coisas. A Comissão Europeia aprovou, no ano passado, mais de 600 milhões de euros em apoio a novos investimentos da GlobalFoundries e da X-FAB na Alemanha, com foco em ampliar a oferta para clientes europeus. A ideia é consolidar uma base produtiva robusta para os chips mais simples, e ao mesmo tempo desenvolver know-how para construir chips mais avançados.

O plano, porém, não avança sem tropeços. Em 2025, a Intel cancelou dois projetos emblemáticos na Europa: uma megafábrica de 30 bilhões de euros em Magdeburgo, na Alemanha, e uma planta de montagem e testes na Polônia. Pressões financeiras internas, demanda mais fraca do que o esperado e atrasos nas negociações de subsídios levaram a empresa a concentrar investimentos em sites nos Estados Unidos e na Ásia. O episódio alimentou a percepção de que, mesmo com o Chips Act, a Europa ainda está em desvantagem contra rivais que se movem mais rápido ou oferecem pacotes mais agressivos de incentivos.

Críticas também vêm de dentro. O Tribunal de Contas Europeu e diversos analistas consideram a meta de 20% até 2030 excessivamente ambiciosa, falando em algo próximo de 11% caso todos os projetos já anunciados saiam do papel. Diante desse cenário, Bruxelas já discute uma espécie de “Chips Act 2” para 2026, com foco mais explícito em chips para inteligência artificial e em segurança econômica. Um texto formal, entretanto, ainda não foi apresentado.

O pano de fundo é a corrida global por data centers e capacidade de computação para IA. A Comissão Europeia fala em triplicar a capacidade de data centers no bloco em cinco a sete anos, ao mesmo tempo em que tenta manter metas climáticas ambiciosas. Nesse tabuleiro, o esforço em semicondutores e a agenda de infraestrutura digital se encontram: quanto mais a economia europeia depende de servidores, redes e nuvem, maior a pressão para que, pelo menos em parte, os chips críticos sejam produzidos em território da UE.

Entre ambição industrial, pressões geopolíticas e urgência tecnológica, o Chips Act é menos um ponto de chegada e mais o começo de uma longa tentativa de reposicionamento. Os próximos anos dirão se a aposta europeia em semicondutores será capaz de encurtar décadas em poucos ciclos de investimento. O processo produtivo de semicondutores é talvez o mais complexo processo de manufatura já criado pela humanidade – e envolve a capacidade de esculpir materiais como o silício em escala atômica, demandando infraestrutura e mão de obra superespecializada. Não é a toa que apenas 5 países conseguem produzir esse tipo de tecnologia. Mas agora que o mundo é digital e os mecanismos multilaterais começar a mostrar desgaste, a corrida por esta capacidade de manufatura deixou de ser uma questão de mercado – é uma questão de sobrevivência.

 

Europeanway

Busca