
A dois dias do segundo turno das eleições presidenciais, Portugal enfrenta um dilema inédito: autoridades eleitorais rejeitaram o pedido de adiamento geral da votação apesar da Tempestade Leonardo, sexta a atingir a Península Ibérica em 2026, ter provocado inundações mortais e milhares de evacuações. O líder da extrema direita André Ventura, que enfrenta o socialista António José Seguro no domingo 8 de fevereiro, solicitou o adiamento, mas apenas três municípios conseguiram remarcação para 15 de fevereiro.
O país de aproximadamente 11 milhões de habitantes ainda se recuperava das tempestades recentes que causaram várias mortes quando a Tempestade Leonardo deixou mais uma vítima fatal esta semana: um homem na casa dos 60 a 70 anos no Alentejo. As tempestades feriram centenas, deixaram dezenas de milhares sem energia elétrica e forçaram cerca de 3.500 evacuações. Portugal prorrogou o estado de emergência. O chefe da Proteção Civil, Mário Silvestre, classificou as inundações no rio Tejo como as piores em quase três décadas.
A agência meteorológica IPMA informou que janeiro foi o segundo mês mais chuvoso deste século em Portugal. Uma nova tempestade estava prevista para sábado, véspera da votação.
Eleição histórica em meio ao caos climático
Esta é apenas a segunda vez em cinco décadas de democracia portuguesa que uma eleição presidencial exige segundo turno, a primeira foi em 1986. Sondagens recentes indicam vitória confortável de Seguro sobre Ventura. A alta participação do primeiro turno pode cair com as adversidades climáticas.
No primeiro turno, realizado em 18 de janeiro, Seguro obteve 31,1% dos votos contra 23,5% de Ventura. A participação foi a segunda maior em uma primeira rodada presidencial na história portuguesa.
Nos últimos dias, ambos os candidatos reescreveram drasticamente suas agendas eleitorais para visitar cidades e vilas mais atingidas pelas inundações. Seguro criticou a resposta governamental, dizendo estar “chocado” com os esforços do Estado. Ventura atacou diretamente o governo de centro-direita de Luís Montenegro, cujo partido não apoiou publicamente nenhum candidato no segundo turno.
Embora o presidente português não governe diretamente, isso cabe ao primeiro-ministro, ele exerce papel de árbitro político com poderes para vetar leis, dissolver o parlamento e demitir governos.
Terceira eleição nacional em menos de dois anos
A eleição presidencial ocorre em um momento de turbulência política sem precedentes recentes. Esta é a terceira eleição nacional desde março de 2024, o maior nível de instabilidade governamental desde a primeira década de democracia após a Revolução dos Cravos de 1974.
A espiral começou em novembro de 2023, quando o primeiro-ministro socialista António Costa renunciou após investigações de corrupção envolvendo projetos de lítio e hidrogênio. Eleições legislativas em março de 2024 levaram ao poder o governo de centro-direita de Montenegro, mas este caiu em março de 2025 após perder voto de confiança relacionado a potenciais conflitos de interesse com uma consultoria de sua família.
Novas eleições legislativas realizadas em maio de 2025 consolidaram o Chega como segunda maior força parlamentar, com 60 assentos, um salto meteórico para um partido fundado há apenas seis anos. Em 2019, o Chega obteve apenas 1,3% dos votos e um único assento.
A crise da habitação alimenta o radicalismo
Por trás da ascensão da extrema direita está uma crise habitacional de proporções históricas. Portugal enfrenta o pior acesso à habitação entre os 30 países analisados pela OCDE. No terceiro trimestre de 2024, o índice de acessibilidade habitacional atingiu 157,7 pontos, o valor mais alto já registrado desde 1995.
A situação do país é 36% pior que a média da OCDE e 50% acima da média da zona euro. Desde 2014, os preços das casas mais que dobraram, aumentando 135,2%, enquanto as rendas médias cresceram apenas 33%.
O Chega canalizou a frustração popular com a crise habitacional e escândalos recorrentes de corrupção em uma mensagem anti-imigração. Durante a campanha, Ventura colocou outdoors pelo país com frases como “Isto não é Bangladesh” e “Imigrantes não devem poder viver de assistência social”. As mensagens provocaram denúncias por discriminação junto à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial e à embaixada de Bangladesh em Lisboa.
Ventura alertou que seria “um presidente intervencionista”, prometendo combater décadas de corrupção dos partidos tradicionais e promover uma agenda anti-imigração. Ele enfrenta críticas por declarações vistas como racistas contra a comunidade cigana e imigrantes do sul da Ásia.
O “cordão sanitário” e o futuro da democracia portuguesa
Para o segundo turno, Seguro conseguiu formar o que analistas chamam de “cordão sanitário”, recebendo apoio de figuras políticas da extrema esquerda até a direita tradicional. Seguro afirmou que seria um presidente moderador e unificador, independente de política partidária, recusando agir como “primeiro-ministro das sombras”.
Apesar da quase certa derrota de Ventura, analistas políticos estarão observando atentamente sua pontuação final no domingo para ver se seu apoio está “estagnando” ou se ele está “conquistando um novo público”, segundo João Cancela, professor de ciência política da Universidade Nova de Lisboa.
Críticos de Ventura dizem que ele está apenas usando a eleição presidencial para fortalecer e expandir a presença de seu partido no país. Mas independentemente do resultado de domingo, o Chega já transformou irreversivelmente a paisagem política portuguesa.
O primeiro-ministro Montenegro descreveu as tempestades como uma “crise devastadora”, mas insistiu que as ameaças à votação podem ser superadas. A lei eleitoral permite adiamento apenas em localidades individuais. Resta saber se a meteorologia terá a palavra final em uma eleição que já marca um ponto de inflexão na democracia portuguesa.






