Na Europa, estar preparado é questão de cultura

27 de março de 2025 4 minutos
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Não faltaram comentários acerca de um suposto exagero das autoridades locais quando, mais de um ano antes da pandemia da Covid-19, o governo sueco distribuiu uma detalhada cartilha a todos os seus cidadãos com orientações sobre o que fazer caso o país entrasse em guerra ou enfrentasse uma situação de ameaça extrema. Afinal, para um país social e economicamente estável, historicamente neutro e sem qualquer agenda de sensibilidades em relação a outras nações, a iniciativa poderia mesmo soar como algo fora da realidade.

O momento de tensões exacerbadas na Europa, no entanto, mostra que antecipar-se a situações de risco potencial e estar preparado para momentos disruptivos é uma grande vantagem, pois alimenta uma cultura de prevenção que pode fazer muita diferença quando fatos indesejáveis de alto impacto realmente acontecem.

As ameaças enfrentadas pela Europa atualmente são mais complexas do que nunca, e agora ouvem-se apelos da própria União Europeia para que cidadãos considerem estocar suprimentos essenciais para emergências. A postura sinaliza uma reação imediata às tensões crescentes com a Rússia e adiciona um dispositivo adicional de alerta à memória de um continente que vivenciou duas guerras mundiais e uma infinidade de conflitos militares em séculos anteriores.

Historicamente, desde o pós-Segunda Guerra Mundial, a Europa aprendeu com traumas profundos a importância do preparo coletivo e individual. Foi assim com o Plano Marshall, iniciativa americana que injetou bilhões para reerguer economias devastadas pela guerra. Também foi assim com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que lançou em 1951 as sementes do que viria a ser a União Europeia, com o objetivo declarado de evitar novos conflitos através da cooperação econômica e diplomática.

No contexto atual, a ameaça representada pela invasão russa à Ucrânia em 2022 e as crises climáticas que assolam o continente aceleraram ainda mais essa lógica de prevenção. A União Europeia lançou recentemente o plano “ReArm Europe”, prevendo investir cerca de €800 bilhões em defesa e segurança ao longo dos próximos anos. Paralelamente, estabeleceu uma estratégia com 30 medidas para reforçar a preparação dos Estados-membros, incluindo a recomendação direta para que cada família mantenha suprimentos capazes de garantir autonomia por pelo menos 72 horas em situações de emergência.

Em um vídeo bem-humorado divulgado nas redes sociais, a comissária europeia Janez Lenarčič exemplificou alguns dos itens essenciais a serem armazenados, incluindo alimentos não perecíveis, água, medicamentos, dinheiro, carregadores para celular, uma lanterna e um rádio pequeno. “Pronta para qualquer coisa. Esse deve ser nosso novo estilo de vida europeu”, escreveu ela em um post no X.

Essa mentalidade de autossuficiência e preparação individual não é nova na Europa, mas vem ganhando reforço. A Suécia atualizou a cartilha mencionada no início deste texto e lançou nova edição em novembro de 2024, cujo título é: “Em caso de crise ou guerra”. Trata-se de iniciativa compreensível na medida em que a Suécia, diante da invasão da Rússia na Ucrânia, decidiu entrar para a OTAN, a aliança militar do ocidente, abandonando portanto sua posição de neutralidade.

Na mesma linha, a Finlândia tem reforçado a segurança em sua fronteira oriental com a construção de uma cerca de 200 km e investido em plataformas digitais que educam a população sobre autodefesa e sobrevivência em situações extremas. Trata-se de um país com memória recente de conflitos com a antiga União Soviética, onde a preparação é parte da cultura nacional.

O apelo atual da União Europeia para a preparação civil não é, portanto, apenas uma resposta pontual à situação geopolítica contemporânea. É parte integrante de um longo histórico europeu de planejamento estratégico, que busca preservar a estabilidade e proteger o modo de vida do continente frente a incertezas futuras.

 

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