Itália reverte posição e abre caminho para acordo comercial entre UE e Mercosul

05 de janeiro de 2026 3 minutos
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A Itália se prepara para apoiar o controverso acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em votação prevista para quinta-feira, abrindo caminho para a assinatura do tratado que vem sendo negociado há 25 anos. A mudança de posição italiana, segundo fontes familiarizadas com o assunto, deve permitir que o bloco europeu finalize o acordo com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai já no dia 12 de janeiro.

A reviravolta marca um desfecho para semanas de incerteza política em Bruxelas. Em dezembro, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni liderou, ao lado da França, uma campanha para adiar o acordo, argumentando que ele não oferecia proteções adequadas aos agricultores europeus. Na ocasião, ela solicitou ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva mais tempo para convencer os produtores rurais italianos, forçando o cancelamento de uma cerimônia de assinatura prevista para dezembro.

As negociações das últimas semanas parecem ter atendido às demandas de Roma. Meloni buscava salvaguardas adicionais para o setor agrícola e recursos extras para agricultores no orçamento do bloco. A Comissão Europeia trabalhou em um pacote de concessões de última hora, que pode incluir novos subsídios e controles fitossanitários mais rigorosos.

“Houve discussões, trabalho e progresso durante as últimas duas semanas”, disse Paula Pinho, porta-voz da Comissão Europeia, em Bruxelas na segunda-feira. “Estamos no caminho certo para considerar a assinatura em breve.”

A França, porém, mantém sua oposição. A porta-voz do governo francês Maud Bregeon reiterou que o acordo “não é aceitável como está” e que “em sua forma atual não é nem equitativo nem justo”. A posição francesa, no entanto, não é suficiente para bloquear o tratado, que precisa apenas de maioria qualificada dos 27 Estados membros da UE.

O acordo criaria um mercado integrado de 780 milhões de consumidores, eliminando progressivamente tarifas sobre produtos como automóveis e ampliando o acesso europeu ao vasto setor agrícola do Mercosul. Economicamente, a Itália seria uma das principais beneficiárias: exportações italianas para os países do Mercosul, incluindo máquinas, equipamentos elétricos e veículos, enfrentam hoje tarifas de até 35%, e o acordo eliminaria impostos sobre cerca de 3,7 bilhões de euros em exportações anuais.

O contexto geopolítico adiciona urgência às negociações. Autoridades europeias temem que novos atrasos possam aproximar as nações sul-americanas, ricas em recursos naturais, de Pequim. O presidente Lula já alertou que o Mercosul está intensificando conversas com Emirados Árabes Unidos, Canadá e Índia.

Para a UE, o acordo representa uma oportunidade de demonstrar relevância global em meio a tensões comerciais crescentes com Washington e Pequim. O pacto ofereceria a ambos os lados uma alternativa aos Estados Unidos, especialmente após o presidente Donald Trump impor uma série de tarifas globais.

A análise da Bloomberg Economics estima que o acordo poderia impulsionar a economia do Mercosul em até 0,7% e a europeia em 0,1%. Mesmo aprovado pelos governos, o tratado ainda precisará passar pelo Parlamento Europeu, onde a resistência vem crescendo entre diferentes grupos políticos.

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