Europa quer ressuscitar a securitização, mas crise do subprime ainda assombra o mercado

26 de fevereiro de 2025 4 minutos
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Após quase duas décadas de cautela, o mecanismo financeiro que detonou a crise global de 2008 volta ao radar da União Europeia como alternativa para estimular a economia. Reguladores e especialistas divergem sobre os riscos e benefícios da securitização no atual cenário.

A securitização, ferramenta financeira que permitiu a proliferação de ativos de risco na crise do subprime de 2008, pode estar voltando ao centro das políticas econômicas europeias. A Comissão Europeia reabriu o debate sobre a expansão desse mercado no bloco, justificando que a prática pode impulsionar o crédito e financiar setores estratégicos, como infraestrutura e transição energética.

A medida, que ainda está em fase de consulta pública, reacendeu discussões entre bancos, reguladores e economistas. Para alguns, a securitização é um motor para a economia real, capaz de destravar crédito e incentivar investimentos. Para outros, traz consigo o risco de repetir os erros que colapsaram o sistema financeiro global há pouco menos de 20 anos.

O que é securitização e por que ela gera preocupação?

A securitização é um processo no qual bancos agrupam créditos – como hipotecas, financiamentos de veículos ou empréstimos empresariais – e os transformam em títulos que podem ser vendidos a investidores no mercado financeiro. O objetivo é liberar capital nos balanços das instituições financeiras para que possam conceder mais crédito.

Nos anos 2000, essa prática se tornou um dos principais motores do mercado imobiliário dos EUA. Bancos empacotavam hipotecas de baixa qualidade em instrumentos financeiros complexos, que eram revendidos no mercado com notas de alta segurança dadas pelas agências de rating. Quando o mercado imobiliário americano entrou em colapso, esses títulos se tornaram ativos tóxicos e espalharam o choque por toda a economia global.

Desde então, essa modalidade caiu em desgraça na Europa, onde os reguladores endureceram regras e restringiram a prática. No entanto, o mercado nunca desapareceu completamente – e nos Estados Unidos, a securitização voltou a crescer rapidamente nos últimos anos.

Por que a Europa quer retomar essa alternativa agora?

A União Europeia enfrenta desafios econômicos que pressionam a busca por novas fontes de financiamento. Com o aumento das taxas de juros pelo Banco Central Europeu (BCE) e um cenário de crédito mais restrito, empresas e governos precisam de alternativas para manter investimentos e crescimento.

Em 2024, a Comissão Europeia lançou uma consulta pública para avaliar a ampliação do mercado de securitização no bloco. O argumento é que a prática pode tornar os mercados de capitais europeus mais integrados, facilitar empréstimos para pequenas e médias empresas e alavancar setores estratégicos, como o financiamento da transição para uma economia de baixo carbono.

O modelo também já foi adotado com sucesso fora da Europa. Nos Estados Unidos, o volume de securitizações atingiu quase US$ 2 trilhões em 2019, praticamente dobrando em 2021. Enquanto isso, na Europa, o mercado permaneceu tímido, girando em torno de € 213 bilhões anuais.

Apesar da promessa de liberar mais crédito, a proposta enfrenta resistência de parte dos reguladores e economistas. Jézabel Couppey-Soubeyran, professora da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, alerta que a reintrodução da securitização pode mascarar riscos dentro do sistema financeiro, exatamente como ocorreu na crise do subprime.

O principal temor é que os bancos utilizem o mecanismo para remover ativos de seus balanços e transferir riscos para investidores, criando uma falsa sensação de estabilidade. Essa opacidade poderia dar margem para práticas especulativas e novas bolhas financeiras.

A Federação Bancária Francesa (FBF), por outro lado, defende que o modelo atual de securitização seria mais seguro, pois envolveria apenas ativos de alta qualidade. Os defensores da proposta argumentam que, se houver transparência e regulamentação adequada, a ferramenta pode ser essencial para destravar o financiamento de setores estratégicos.

A grande questão que paira sobre o debate é se a Europa está preparada para evitar os erros do passado. Desde 2008, foram implementadas novas regras, como os acordos de Basileia III e a exigência de que os bancos mantenham pelo menos 5% dos ativos securitizados em seus balanços, garantindo maior responsabilidade sobre os riscos envolvidos.

 

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