
A percepção de exposição a notícias falsas e desinformação entre europeus cresceu oito pontos percentuais desde 2022, atingindo 36% da população, segundo pesquisa Eurobarometer divulgada em fevereiro. O dado acende alerta em um continente que considera a desinformação uma das principais ameaças à segurança, ao lado de conflitos armados e terrorismo.
A geografia da desinformação no continente revela um mapa de vulnerabilidades institucionais e sociais. Hungria lidera o ranking com 57% dos entrevistados relatando exposição frequente ou muito frequente a conteúdo falso, seguida por Romênia (55%) e Espanha (52%). No extremo oposto, Finlândia e Alemanha registram os menores índices, com apenas 26%.
A variação não segue um padrão geográfico rígido. Luxemburgo e Irlanda, economias estáveis da Europa Ocidental, apresentam índices acima de 40%, enquanto República Tcheca, Itália e Portugal ficam abaixo das médias regionais. A contradição sugere que o fenômeno transcende divisões entre leste-oeste ou norte-sul, apontando para fatores locais mais complexos.
Apenas 12% dos europeus dizem se sentir muito confiantes em reconhecer desinformação quando a encontram. Quando somados aos “um pouco confiantes”, o índice chega a 62%, mas representa uma queda de dois pontos percentuais em relação a 2022.
Malta destaca-se com 84% de confiança no reconhecimento de conteúdo falso, enquanto a Polônia registra apenas 49%. A assimetria entre percepção de exposição e capacidade de identificação evidencia uma lacuna crítica: dois terços dos europeus acreditam ter contato com desinformação “pelo menos às vezes”, mas menos de um em cada oito se sente muito preparado para distingui-la.
Saltos bruscos em países desenvolvidos
A evolução temporal adiciona camadas ao problema. Dinamarca e Holanda, conhecidas por seus sistemas educacionais robustos e alto índice de desenvolvimento humano, registraram os maiores aumentos: 19 pontos percentuais cada. Luxemburgo cresceu 18 pontos, Malta 17, Suécia 14 e Espanha 13.
Das 27 nações da UE, 22 viram crescimento na percepção de exposição à desinformação desde 2022. A aceleração coincide com mudanças no ecossistema das redes sociais, incluindo a aquisição do Twitter por Elon Musk no final de 2022 e sua posterior transformação em X.
Infraestrutura de resiliência faz a diferença
Konrad Bleyer-Simon, pesquisador do Centro para Pluralismo e Liberdade de Mídia, aponta que a resiliência à desinformação depende de fatores estruturais. “Países terminam sendo mais resilientes se têm emissoras públicas fortes e independentes, autorregulação efetiva para meios privados, alta confiança nas notícias e uma população mais inclinada a obter informação de veículos jornalísticos do que de redes sociais”, afirmou.
O impacto é amplificado em sociedades com alto grau de polarização, desigualdades econômicas, baixo desempenho educacional e baixa confiança em instituições. A ausência de letramento midiático e de atividades estruturadas de checagem de fatos agrava o cenário, segundo o pesquisador.
A União Europeia tem buscado ampliar pressão sobre plataformas digitais e influenciadores para combater ameaças híbridas e promover a democracia. Apenas três países do bloco, no entanto, realizaram avaliações sistemáticas do nível de letramento midiático de toda a população.
A lacuna entre percepção crescente do problema e capacidade limitada de resposta individual ou institucional sugere que a desinformação deixou de ser ruído de fundo para se tornar, como alertam autoridades alemãs, potencial prelúdio de conflitos armados.





