
A COP 30, marcada para novembro de 2025 em Belém, acontece em um momento de redefinição da governança climática global. Com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, anunciada pelo presidente Donald Trump, a União Europeia (UE) se vê diante de um desafio duplo: manter sua própria agenda climática ambiciosa e evitar que o vácuo deixado pelos EUA comprometa os avanços das últimas décadas.
A decisão da Casa Branca não apenas fragiliza os esforços internacionais, mas também ameaça um dos pilares centrais das negociações climáticas: o financiamento para países em desenvolvimento, elemento essencial para garantir que economias emergentes consigam reduzir suas emissões e preservar suas florestas e biodiversidade sem comprometer o crescimento econômico.
A UE sempre se posicionou como protagonista na agenda climática, sendo uma das primeiras grandes economias a estabelecer metas rigorosas de redução de emissões e a implementar mecanismos regulatórios como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que impõe tarifas sobre produtos importados de países com políticas ambientais menos rigorosas.
Com a saída dos EUA, a expectativa é que a Europa assuma um papel ainda mais central nas negociações da COP 30. Para Mattias Frumerie, principal negociador climático da Suécia, a UE precisa intensificar seus esforços diplomáticos para garantir que o resto do mundo não desacelere suas ações climáticas. “Precisamos continuar pressionando, não apenas internamente, mas também incentivando outros países a seguirem a mesma trajetória”, afirmou.
No entanto, a crescente pressão política interna dentro da UE pode dificultar essa liderança. O avanço de partidos populistas e eurocéticos tem questionado o custo da transição energética, tornando mais difícil o consenso dentro do bloco para assumir compromissos ainda mais ambiciosos.
A retirada dos EUA compromete diretamente a meta de financiamento climático estabelecida em acordos anteriores. O compromisso atual prevê que países desenvolvidos mobilizem US$ 300 bilhões anuais até 2035 para apoiar nações em desenvolvimento na transição para energias renováveis e adaptação aos impactos das mudanças climáticas. Porém, estimativas apontam que o montante necessário pode ultrapassar US$ 1,3 trilhão por ano.
A UE, que já é uma das maiores contribuintes para fundos climáticos, agora enfrenta o dilema de compensar parcialmente a ausência dos EUA ou pressionar outros países desenvolvidos, como Canadá, Japão e Austrália, a ampliarem suas contribuições.
A incerteza sobre a capacidade europeia de sustentar esse financiamento levanta dúvidas entre os países emergentes. Sem garantias concretas, é possível que economias dependentes de combustíveis fósseis reduzam seus compromissos climáticos, ampliando o risco de retrocesso global.
Enquanto a União Europeia luta para manter o equilíbrio de sua agenda interna e externa, outros países podem emergir como protagonistas na COP 30. A China, por exemplo, já lidera a transição energética global em setores estratégicos, sendo a maior produtora mundial de painéis solares, turbinas eólicas e baterias elétricas. No entanto, sua contínua dependência do carvão gera desconfiança sobre seu real comprometimento de longo prazo.
O Brasil, por sua vez, assume um papel central na COP 30 como país anfitrião. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado consolidar a imagem do país como líder ambiental, destacando avanços na redução do desmatamento da Amazônia e na transição energética. Entretanto, a expansão da exploração de petróleo e o crescimento do agronegócio permanecem como desafios para um discurso ambiental mais robusto.
A relação entre Brasil e União Europeia também será um fator-chave. A UE tem se posicionado como parceira estratégica para o país em questões ambientais, mas há divergências sobre a implementação de cláusulas ambientais no acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, o que pode dificultar uma colaboração mais estreita.
Com o cenário geopolítico mais incerto, o setor privado pode ter um papel decisivo na manutenção da agenda climática. Empresas europeias já se antecipam à instabilidade política e reforçam compromissos individuais de redução de emissões e financiamento de soluções sustentáveis.
Além disso, mecanismos como o CBAM, que impõe tarifas de carbono sobre produtos importados, podem ser intensificados para compensar a falta de compromissos de outras nações. Isso, no entanto, pode gerar tensões comerciais, especialmente com os Estados Unidos, caso Washington passe a ver essas medidas como barreiras protecionistas disfarçadas.