Bulgária adota euro em meio a temores e protestos

29 de dezembro de 2025 5 minutos
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A Bulgária se torna oficialmente o 21º membro da zona do euro nesta quarta-feira, mas a transição ocorre em meio a protestos populares, instabilidade governamental e ceticismo generalizado sobre os benefícios da moeda única no país mais pobre da União Europeia.

O Conselho da União Europeia aprovou formalmente a adesão búlgara em julho, estabelecendo uma taxa de conversão de 1,95583 levs por euro, correspondente à taxa vigente no mecanismo de câmbio desde 1999. A mudança representa um marco histórico para o país, que se juntou à UE em 2007, mas enfrenta desafios únicos que vão além da simples troca de moeda.

A população búlgara permanece profundamente dividida sobre a adoção do euro. Uma pesquisa recente da Rádio Nacional Búlgara encontrou 57% dos búlgaros contrários à adoção do euro em princípio, enquanto apenas 39% apoiam a medida. Essa resistência ganhou força ao longo de 2025, especialmente em regiões rurais e pobres, onde predomina o uso de dinheiro em espécie e a literacia financeira é mais baixa.

Os temores se concentram principalmente na inflação e no aumento do custo de vida. Os preços dos alimentos em novembro subiram 5% em relação ao ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Estatística, mais do que o dobro da média da zona do euro. Comerciantes em vilarejos do noroeste do país relatam confusão com a exibição dupla de preços e temem que janeiro seja “caótico”.

Economistas, no entanto, argumentam que esses receios são mais perceptivos do que reais. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou que o impacto na inflação em transições anteriores para o euro entre 2002 e 2024 ficou entre 0,2 e 0,4 pontos percentuais. Patrick Bisciari, economista do Banco Nacional da Bélgica, observou que o impacto real sobre os preços em mudanças anteriores costuma ser pequeno e temporário.

A transição ocorre em meio a profunda crise política. O governo renunciou no início deste mês após protestos que levaram dezenas de milhares de pessoas às ruas de Sofia, resultado de manifestações anticorrupção que derrubaram um governo de orientação conservadora. O país caminha para sua oitava eleição antecipada em cinco anos.

Em fevereiro, milhares de apoiadores do partido de extrema-direita Vazrazhdane tentaram invadir a sede da missão da União Europeia em Sofia durante um protesto contra os planos de adoção do euro. O movimento pró-Rússia organizou centenas de manifestações ao longo do ano, algumas resultando em vandalismo e confrontos com a polícia.

Apesar da resistência popular, sucessivos governos búlgaros mantiveram o compromisso com a zona do euro. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que o euro fortalecerá a economia búlgara através de laços comerciais mais profundos, maior investimento estrangeiro e acesso mais fácil ao financiamento, defendendo que a mudança apoiará a criação de empregos e a renda real.

Os benefícios econômicos potenciais são significativos. Pequenas e médias empresas búlgaras poderão economizar cerca de 1 bilhão de levs anualmente apenas em custos de conversão cambial. A economia búlgara já está profundamente integrada à zona do euro, com 65% das exportações destinadas a países da UE e 45% para países da zona do euro.

O setor de turismo, que gera cerca de 8% do PIB do país, deve se beneficiar particularmente da mudança. A eliminação das barreiras cambiais no Mercado Único promete facilitar o comércio e reduzir custos de financiamento.

Mas analistas alertam que a instabilidade política pode comprometer esses ganhos. O país é classificado como o mais corrupto da UE pela Transparência Internacional, e reformas anticorrupção necessárias podem ser adiadas pela turbulência política. “O desafio será ter um governo estável por pelo menos um ou dois anos, para que possamos colher plenamente os benefícios de entrar na zona do euro”, avaliou um analista.

Autoridades implementaram medidas de proteção ao consumidor. O Parlamento adotou órgãos de supervisão com poderes para investigar aumentos abusivos de preços e conter elevações injustificadas ligadas à mudança cambial. Todos os preços devem ser exibidos em ambas as moedas até o final de 2026 para permitir que os consumidores verifiquem a correção das conversões.

Durante um mês a partir de 1º de janeiro, tanto o lev quanto o euro serão aceitos como moeda legal, facilitando a transição. Os búlgaros poderão trocar notas e moedas em lev por euros gratuitamente em bancos comerciais e agências dos correios até junho de 2026.

A mudança fecha um capítulo na história monetária búlgara. Após uma hiperinflação devastadora nos anos 1990, o país vinculou sua moeda primeiro ao marco alemão e depois ao euro, buscando estabilidade. A adoção formal do euro representa a culminação desse processo, mas também expõe as tensões entre integração europeia e soberania nacional, prosperidade prometida e insegurança econômica presente.

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