
A cena, no último fim de semana, foi inédita e muito reveladora do momento político fragmentado e sensível da maior economia da Europa e terceira do mundo, um território onde não faltam turbulências.
Pela primeira vez um debate político transmitido pela televisão alemã às vésperas de uma eleição para o Parlamento levou ao palco não os tradicionais dois principais candidatos, mas o recorde de quatro postulantes ao posto de primeiro-ministro, representando um amplo leque ideológico.
Lá estavam, na reta final pelo apoio nas urnas, no próximo domingo 23 de fevereiro, o atual chanceler Olaf Scholz, do SPD, de centro-esquerda; seu principal rival Friedrich Merz, do bloco conservador CDU/CSU (que lidera a corrida com folga); Alice Weidel, do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD); o vice-chanceler Robert Habeck, dos Verdes.
CDU/CSU tem 30% das intenções de votos segundo as pesquisas, vindo a AfD em segundo lugar com 20%, à frente dos social-democratas de Scholz com 15%, e dos Verdes, com 13%.
64 milhões de alemães estão aptos a votar. Eles escolherão 736 parlamentares, aos quais caberá indicar, de fato, o primeiro-ministro com base na nova composição do plenário. Como nenhum partido formará maioria absoluta, o bloco com maior número de representantes eleitos deverá, além de indicar o nome do primeiro-ministro, buscar o apoio de um (ou dois) outro partido para formar um governo de coalizão.
O resultado das urnas interessa a toda a Europa devido a importância do país nas dimensões política, econômica e social em todo o continente.
Imigração, economia e fantasma do nazismo
O tema sensível da imigração tem estado no topo do debate político no país, principalmente depois de recentes atentados com mortes causados em diferentes cidades do país por pessoas oriundas de países onde predomina a religião islâmica. Mas a economia, que passa por um raro momento de desaquecimento, também repercute, e muito. O Produto Interno Bruto (PIB) que havia crescido 2,6% em 2021 e 1,9% em 2022, caiu 0,3% em 2023 e de 0,2% em 2024 (como comparação: o PIB brasileiro avançou 3,2% em 2023 e estimados 3,5% em 2024).
A Alemanha de hoje é caracterizada por dúvidas e uma certa dose de ansiedade. Além de enfrentar um processo de desaceleração econômica o país vive momentos de expectativa em relação aos desdobramentos da volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos com um discurso muito pouco amigável em relação ao continente europeu como um todo.
O país é o mais comprometido do continente no apoio a Ucrânia na guerra contra a Rússia. Tem sistematicamente ajudado o líder Volodymyr Zelensky tanto financeiramente como no fornecimento de equipamentos militares, e anunciou há algumas semanas 650 milhões de euros adicionais para o governo de Kiev. Nesse contexto cresce a percepção (e um certo descontentamento) de boa parte dos alemães de que seu país está gastando muito mais com a Ucrânia do que qualquer outro da Europa.
O AfD, que representa a extrema-direita em um país que não esquece o tenebroso período nazista do século passado, preocupa a maioria dos alemães. O partido conta com a simpatia explícita e ruidosa do empresário Elon Musk, hoje um dos braços direitos de Donald Trump. A cúpula do AfD, por sinal, foi oficialmente convidada para a posse do presidente americano em Washington, em janeiro.