
Nem os tratores franceses, nem o bloqueio simbólico da Champs Élysées, nem a promessa pública de veto de Emmanuel Macron foram suficientes para alterar o desfecho. Enquanto agricultores transformavam Paris em palco de protesto, com máquinas estacionadas diante do Arco do Triunfo, vias bloqueadas e quilômetros de congestionamento, a decisão real foi tomada a cerca de 300 quilômetros dali, em Bruxelas.
Na sexta-feira passada, dia 09 de janeiro, os embaixadores dos 27 países da União Europeia aprovaram o acordo comercial com o Mercosul. Vinte e seis anos depois do início das negociações, Europa e América do Sul selam o maior pacto comercial bilateral da história europeia, conectando 780 milhões de consumidores e uma economia combinada de 22 trilhões de dólares em PIB.
A votação foi apertada. França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda votaram contra; a Bélgica se absteve. Mas a mudança de posição da Itália – de opositora em dezembro a apoiadora hoje – foi decisiva. Roma extraiu concessões consideráveis: 45 bilhões de euros em subsídios agrícolas antecipados, redução de tarifas sobre fertilizantes e salvaguardas comerciais mais rigorosas. Foi o suficiente para garantir a maioria necessária.
Segundo a Bloomberg Economics, o acordo deve impulsionar a economia do Mercosul em até 0,7% e a da União Europeia em 0,1%. Mas o tamanho não garante implementação. A França já anunciou que lutará no Parlamento Europeu, e o caminho até a vigência plena pode levar anos.
Ursula von der Leyen deve viajar ao Paraguai na próxima sexta-feira, dia 17, para assinar formalmente o acordo com os países do Mercosul. A organização desse encontro é prerrogativa do presidente paraguaio, Santiago Peña, que assumiu a presidência rotativa do Mercosul no início deste ano.
Do lado brasileiro, a avaliação do governo é de que não será necessária a presença de chefes de Estado para a formalização do acordo. A decisão de escalar ministros em vez do presidente Lula se deve ao fato de que os presidentes sul-americanos se reuniram há poucos dias, em dezembro de 2025, em Foz do Iguaçu, quando o anúncio político do acordo havia sido feito.
Será uma cerimônia simbólica, mas sem valor jurídico imediato. O texto ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu e por processos de ratificação que podem levar anos.
Setor privado celebra acordo histórico
Para Sergio Quiroga, Presidente das Eurocâmaras Brasil, o acordo representa um divisor de águas nas relações comerciais entre os blocos. Em declaração exclusiva para European Way, Quiroga destacou a dimensão histórica do momento:
“O acordo entre a Europa e a América do Sul é um marco importante em nosso relacionamento de longo prazo. Após 26 anos de negociações, demos um passo fundamental para fortalecer essa parceria secular. As principais empresas europeias já têm presença no Brasil e, com certeza, as empresas brasileiras se beneficiarão dos incentivos oferecidos pelo acordo. O Mercosul tem economias em crescimento e a Europa se beneficiará com produtos de alta qualidade produzidos nesta região. Que venham mais séculos de bom relacionamento e bons negócios entre a Europa e o Mercosul!”
O preço da aprovação: concessões de última hora
Nos últimos dias antes da votação, a Comissão Europeia entregou uma série de garantias para vencer resistências. O pacote, negociado intensamente entre terça e quinta-feira daquela semana, foi construído sob medida para aplacar os setores agrícolas mais poderosos do continente.
A concessão mais significativa foi a antecipação de 45 bilhões de euros em fundos da Política Agrícola Comum, que seriam liberados apenas a partir de 2028. O dinheiro estará disponível imediatamente para compensar eventuais impactos das importações sul-americanas. É um montante considerável, equivalente a cerca de um ano e meio do orçamento agrícola italiano.
Mas o dinheiro não foi suficiente. A Comissão também cedeu em um dos temas mais sensíveis para agricultores: o mecanismo de carbono na fronteira (CBAM), a taxa europeia sobre importações de produtos com alta pegada de carbono. Fertilizantes, que entraram na mira do CBAM em 1º de janeiro, foram parcialmente isentos. As tarifas de importação sobre ureia caíram de 6,5% para zero. Sobre amônia, de 5,5% para zero. Foi uma reversão completa, apenas uma semana depois da entrada em vigor do sistema.
As salvaguardas comerciais também foram reforçadas. O acordo agora prevê mecanismos automáticos para suspender importações de produtos agrícolas sensíveis se houver aumento abrupto. A Itália pressionou para reduzir o gatilho de 8% para 5% no volume de importações, um limite que tornaria as salvaguardas muito mais fáceis de acionar. Ainda não está claro se essa redução entrará no texto final, mas o simples fato de ter sido negociada mostra o peso político que Roma conseguiu exercer.
Além disso, a Comissão reforçou controles sobre resíduos de pesticidas em produtos importados. Cláusulas sobre reciprocidade fitossanitária foram incluídas: produtos tratados com agrotóxicos banidos na UE podem ser barrados na fronteira. Não é apenas protecionismo comercial. É também uma resposta a anos de pressão de sindicatos agrícolas que veem concorrência desleal em produtos sul-americanos cultivados sob regras ambientais menos rígidas.
A reviravolta italiana que mudou o jogo
Em dezembro, a Itália impediu que o acordo fosse votado. Giorgia Meloni, pressionada por seu ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, e por um setor agrícola mobilizado, disse que não assinaria sem garantias concretas. O presidente Lula chegou a ameaçar desistir do pacto. A tensão era palpável: a cerimônia de assinatura, prevista para 20 de dezembro em Foz do Iguaçu, foi cancelada de última hora.
Mas Roma nunca esteve completamente contra o tratado. A indústria italiana, especialmente os setores automotivo, de máquinas e químico, pressionava pela aprovação. O que a Itália queria era extração de concessões. E conseguiu.
Ao longo da primeira semana de janeiro, o governo Meloni negociou diretamente com Ursula von der Leyen. A presidente da Comissão Europeia fez múltiplas ligações para Roma. O pacote de 45 bilhões de euros foi costurado nesses dias. As isenções sobre fertilizantes também. E as salvaguardas foram reescritas para incorporar o limite de 5% defendido por Lollobrigida.
Quando a Itália sinalizou que mudaria de voto, a dinâmica política na UE se inverteu. França e Polônia continuaram na oposição, mas ficaram isoladas. Sem Roma, não havia minoria de bloqueio. Paris percebeu tarde demais que havia perdido a batalha.
Antonio Tajani, ministro das Relações Exteriores italiano, declarou que seu país “sempre apoiou a conclusão do acordo, salientando a necessidade de ter em devida conta as preocupações legítimas do setor agrícola”. Foi uma vitória política clara para Roma: Meloni conseguiu se posicionar como defensora dos agricultores e, ao mesmo tempo, garantir os interesses industriais do país.
A fúria francesa e o isolamento político
Na madrugada de quinta-feira, 8 de janeiro, cerca de 100 tratores furaram bloqueios policiais e entraram em Paris. Agricultores da Coordination Rurale e de outros sindicatos ocuparam a Champs-Élysées, estacionaram tratores em frente ao Arco do Triunfo e bloquearam vias próximas à Torre Eiffel. Foi uma operação coordenada. Comboios partiram de várias regiões do país durante a noite, convergindo para a capital antes do amanhecer.
As autoridades tentaram impedir a entrada. Na quarta-feira, a polícia havia proibido o acesso de tratores a áreas sensíveis. Mas os agricultores encontraram rotas alternativas. Bloquearam rodovias, incluindo a A13, que liga Paris à Normandia, causando 150 quilômetros de congestionamentos.
Para os agricultores franceses, o tratado representa concorrência desleal: carne bovina, açúcar, soja e outros produtos chegando da América do Sul a preços mais baixos, produzidos sob regras ambientais menos rigorosas. “Nosso fim = sua fome”, dizia uma faixa em um trator.
Emmanuel Macron prometeu publicamente que a França não apoiaria o acordo. Mas sua margem de manobra era limitada. Sem maioria no Parlamento francês, qualquer erro político pode resultar em moção de censura. Na noite de quinta-feira, horas antes da votação, Macron anunciou no X que a França votaria “não”. Foi mais um gesto simbólico do que efetivo. Sem a Itália, Paris não tinha votos suficientes para bloquear.
Por que demorou 26 anos?
As negociações começaram em junho de 1999, no Rio de Janeiro. Na época, a motivação europeia era clara: os Estados Unidos avançavam com a proposta da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), e a Europa não queria perder espaço na América Latina.
O projeto americano naufragou em 2005, rejeitado por Lula (primeiro mandato), Néstor Kirchner e Hugo Chávez. Com a Alca fora do jogo, a Europa perdeu parte da urgência. As negociações ficaram congeladas entre 2005 e 2010.
A retomada veio em 2016, quando Donald Trump venceu as eleições americanas com uma agenda protecionista. Europa e Mercosul perceberam que precisavam de alternativas. As conversas ganharam velocidade e, em 2019, foi anunciado um acordo político. Mas era apenas isso: um acordo político, com diversos pontos em aberto.
Entre 2019 e 2024, a pandemia e a guerra na Ucrânia mudaram prioridades. Questões ambientais ganharam peso. Quando Lula assumiu seu terceiro mandato em 2023, ele exigiu renegociações para equilibrar melhor os termos.
O governo brasileiro criou o “Pacote de Brasília”, reescrevendo capítulos sobre desenvolvimento sustentável e proteção industrial. O setor automotivo ilustra a mudança de abordagem: o Brasil negociou prazos de desgravação que vão de 18 a 30 anos, dependendo da tecnologia do veículo.
Mais importante: conquistou uma salvaguarda automobilística. Se as importações europeias dispararem e ameaçarem a indústria local, o país pode suspender o cronograma ou reimplantar tarifas de até 35% por três anos, renováveis por mais dois, sem compensar a UE.
Lula e Ursula von der Leyen se encontraram seis vezes entre junho de 2023 e dezembro de 2025. O anúncio definitivo veio em 6 de dezembro de 2025, em Montevidéu. Mas a assinatura, prevista para 20 de dezembro em Foz do Iguaçu, foi adiada devido à oposição italiana.
Próximos passos: a batalha no Parlamento Europeu
A aprovação pelos embaixadores na sexta-feira passada é o primeiro passo. Após a cerimônia no Paraguai na próxima sexta-feira, o texto segue para o Parlamento Europeu. A votação deve ocorrer nos próximos meses e será acirrada. A França já mobiliza eurodeputados para rejeitar o tratado.
A estratégia da Comissão Europeia é dividir o acordo em duas partes: uma comercial, de competência exclusiva da UE, e outra de cooperação política, que exigiria ratificação pelos 27 parlamentos nacionais. A parte comercial poderia entrar em vigor provisoriamente com aprovação do Parlamento Europeu e maioria qualificada no Conselho, sem necessidade de unanimidade.
A França, porém, já sinalizou que contestará essa divisão. Argumentará que o acordo é “misto” por natureza e não pode ser fragmentado artificialmente. Se o Tribunal de Justiça da UE aceitar esse argumento, o processo pode arrastar-se indefinidamente. O acordo com o Canadá (CETA) começou a ser aplicado provisoriamente em 2017 e, oito anos depois, ainda não foi totalmente ratificado.
Os números em jogo
Além da cota de carne bovina de 99 mil toneladas anuais (com tarifa de 7,5%), o acordo prevê eliminação gradual de tarifas em diversos setores. Cerca de 60 mil empresas europeias que exportam para a América do Sul devem se beneficiar, economizando cerca de 4 bilhões de euros anuais.
Para o Brasil, projeções governamentais indicam crescimento de 6,7% nas exportações agrícolas para a UE, 14,8% em serviços e 26,6% na indústria de transformação.
A dimensão geopolítica
A China é hoje o maior parceiro comercial da América do Sul, com investimentos pesados em infraestrutura, mineração e agricultura. Para a Europa, o acordo com o Mercosul tem tanto valor econômico quanto estratégico.
A América do Sul possui reservas críticas de lítio, grafite e terras raras, essenciais para a transição energética. Argentina e Bolívia detêm cerca de 44 milhões de toneladas de lítio, quase metade das reservas mundiais. Reduzir a dependência da China nesses minerais é prioridade para Bruxelas.
O retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025, com imposição de tarifas globais, torna o acordo ainda mais relevante. Europa e Mercosul precisam diversificar suas relações comerciais e reduzir dependência dos Estados Unidos.
Um detalhe técnico relevante: o acordo prevê vigência bilateral. Se Brasil e UE concluírem suas ratificações, o tratado pode entrar em vigor entre eles, independentemente de Argentina, Paraguai ou Uruguai.





