A queda da Orbex e os limites da ambição espacial europeia

Danilo Valeta, Diretor na Imagem Corporativa 12 de fevereiro de 2026 5 minutos
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A crise da Orbex, startup britânica de lançadores espaciais fundada com a promessa de oferecer à Europa uma alternativa mais sustentável e flexível de acesso ao espaço, tornou-se nas últimas semanas um símbolo das fragilidades estruturais do setor aeroespacial europeu. Agora, ao entrar em processo de insolvência antes mesmo de realizar seu primeiro lançamento orbital, a empresa expôs não apenas os riscos inerentes à indústria espacial, mas também os limites do atual modelo europeu de financiamento, coordenação e ambição estratégica.

Criada para atuar no mercado de microlançadores, a Orbex buscava atender à crescente demanda por pequenos satélites ligados a comunicações, monitoramento ambiental e serviços de dados. Em um cenário global marcado pela intensificação da competição tecnológica, esses sistemas passaram a ser componentes centrais da infraestrutura econômica e de segurança dos países. O fracasso da empresa, portanto, não representa apenas a queda de uma startup, mas a perda de uma oportunidade de ampliar a autonomia europeia em um segmento estratégico.

Nos últimos anos, a Europa tem reiterado a importância do chamado “acesso soberano ao espaço”, entendido como a capacidade de lançar, operar e proteger seus próprios sistemas sem depender de atores externos. Esse objetivo ganhou ainda mais relevância diante da guerra na Ucrânia, do acirramento das disputas entre Estados Unidos e China e da crescente militarização do domínio espacial. Nesse contexto, cada elo da cadeia produtiva — dos grandes lançadores às startups emergentes — passou a ser visto como parte de uma arquitetura de segurança e competitividade continental.

A falência da Orbex ocorre justamente em um momento em que a União Europeia e seus parceiros tentam reconstruir sua credibilidade no setor, após anos de atrasos e dificuldades nos programas de lançamento. Embora o Ariane 6 e o Vega-C tenham retomado operações, o continente ainda enfrenta desafios para competir em custo, frequência e agilidade com grandes operadores globais. A ausência de empresas capazes de ocupar nichos complementares, como o dos microlançadores, limita a flexibilidade do sistema europeu como um todo.

Do ponto de vista econômico, o caso evidencia a dificuldade da Europa em transformar excelência científica em negócios sustentáveis em setores de alta intensidade de capital. Projetos espaciais exigem investimentos elevados e contínuos antes de gerar retorno, o que torna o apoio institucional e a previsibilidade regulatória fatores decisivos. No entanto, o modelo europeu permanece fragmentado, dependente de decisões nacionais e sujeito a ciclos políticos, criando incertezas que afastam investidores privados de longo prazo.

Essa fragilidade estrutural tem efeitos diretos sobre a competitividade industrial. O espaço deixou de ser apenas um campo de pesquisa para se tornar um vetor central da economia digital, da logística global, do agronegócio de precisão e dos serviços financeiros. Ao perder empresas como a Orbex, a Europa reduz sua capacidade de capturar valor nessas cadeias e aumenta o risco de dependência tecnológica em áreas sensíveis.

Há também implicações relevantes para a política industrial do continente. O episódio reforça o contraste entre o discurso europeu sobre autonomia estratégica e a limitada capacidade de sustentar ecossistemas empresariais completos. Enquanto outras potências combinam compras públicas em escala, contratos de longo prazo e forte mobilização de capital privado, a Europa ainda opera com mecanismos dispersos, frequentemente insuficientes para atravessar as fases mais críticas do desenvolvimento tecnológico.

No plano geopolítico, essa lacuna se traduz em vulnerabilidade. Satélites de comunicação, observação e navegação são hoje ativos essenciais para defesa, diplomacia, gestão de crises e proteção de infraestruturas críticas. A dependência de serviços externos, ainda que de parceiros, reduz margens de manobra em situações de tensão internacional e limita a capacidade de projeção de poder e influência.

A insolvência da Orbex, portanto, deve ser lida como um alerta. Ela sinaliza que a ambição europeia no espaço não será alcançada apenas com programas emblemáticos ou declarações políticas, mas com uma estratégia econômica coerente, capaz de integrar financiamento, demanda pública, coordenação regulatória e visão de longo prazo. Sem isso, o continente corre o risco de permanecer tecnicamente competente, mas estruturalmente dependente.

Mais do que o destino de uma empresa, está em jogo a posição da Europa em uma das fronteiras centrais da economia e da geopolítica do século XXI. A forma como o bloco reagirá a esse episódio ajudará a definir se o espaço será, para os europeus, um instrumento efetivo de soberania e desenvolvimento ou apenas mais um campo em que a liderança ficará nas mãos de outros.

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