
A indústria europeia de componentes automotivos registrou 104 mil cortes de emprego anunciados entre 2024 e 2025, segundo dados da CLEPA, associação que representa o setor no continente. O número, equivalente a aproximadamente 142 empregos perdidos por dia, supera as demissões anunciadas durante a pandemia de Covid-19 e evidencia as pressões estruturais enfrentadas pelos fornecedores.
Em 2024, foram anunciados 54 mil cortes de emprego no setor de fornecimento automotivo. Em 2025, outros 50 mil cortes foram anunciados, acompanhados pela criação de apenas 7 mil novas posições, número insuficiente para compensar as perdas.
A natureza das demissões passou por transformação significativa. Entre 2020 e 2024, a maioria das perdas de emprego resultou de reestruturações internas, representando quase dois terços das reduções, enquanto fechamentos e falências correspondiam a 22% dos casos. O cenário mudou em 2025, quando fechamentos e falências passaram a representar 44% dos cortes, equivalendo a quase 10 mil empregos.
No início de 2025, 57% das perdas foram atribuídas a falências ou fechamentos de fábricas, com pelo menos oito plantas ou empresas encerrando operações na Europa desde janeiro, incluindo o caso da Northvolt.
Fatores estruturais pressionam fornecedores
A demanda por veículos na Europa mantém-se abaixo dos níveis históricos. Em 2025, a União Europeia produziu aproximadamente 3,1 milhões de unidades a menos que em 2019, uma queda de cerca de 20%. Apesar do crescimento de 23% na produção de veículos elétricos entre 2024 e 2025, o volume total de EVs produzidos (3,3 milhões de unidades) ficou significativamente abaixo dos 4,8 milhões projetados em 2023.
A competição com fabricantes chineses intensificou-se substancialmente. Pela primeira vez, a União Europeia registrou déficit comercial em componentes de nova mobilidade de €1,4 bilhão na primeira metade de 2025, após superávit de €4,4 bilhões no mesmo período de 2024. As importações de baterias pela UE atingiram €11 bilhões no primeiro semestre de 2025, o dobro dos €5,5 bilhões registrados no mesmo período de 2022.
A transição para veículos elétricos apresenta desafios adicionais. Componentes tradicionalmente fabricados na Europa, como peças de motor, sistemas de combustível e sistemas de escape, representam cerca de €230 bilhões em receita anual global e não são necessários em veículos elétricos a bateria.
Fornecedores europeus enfrentam desvantagem de custos entre 15% e 35% em relação a competidores globais, principalmente devido a altos custos de energia e mão de obra, carga regulatória e estruturas fragmentadas.
A lucratividade média dos fornecedores automotivos europeus tem diminuído nos últimos três anos. Em 2025, apenas um terço dos fornecedores esperava alcançar margens EBIT acima de 5% – patamar considerado necessário para sustentar investimentos de longo prazo, inovação e transformação industrial.
Pesquisa CLEPA-McKinsey realizada no outono de 2025 indica ligeira melhora em relação a 2024: a proporção de fornecedores reportando prejuízos ou equilíbrio operacional caiu de 38% para 34%. No entanto, essa mudança marginal não sinaliza recuperação ampla, e as pressões financeiras subjacentes permanecem significativas.
Investimentos e perspectivas para 2026
Os investimentos em projetos de veículos elétricos despencaram em 2024, com muitos projetos adiados, reduzidos ou cancelados, refletindo demanda mais fraca que o previsto. Grandes fornecedores como Bosch, ZF e Continental implementaram reduções significativas de pessoal, e a realocação geográfica da produção tornou-se estratégia recorrente, com transferências de França, Alemanha e Reino Unido para países de menor custo como Hungria, Polônia e Romênia.
A Comissão Europeia anunciou em dezembro de 2025 o Pacote Automotivo, que substitui a proibição total de veículos a combustão em 2035 por uma meta de redução de 90% nas emissões de CO₂, com flexibilidade para uso de combustíveis renováveis e créditos para aço de baixo carbono produzido na UE. Benjamin Krieger, secretário-geral da CLEPA, reconheceu o avanço, mas enfatizou que “a implementação das propostas precisa ser pragmática e flexível”.
O Industrial Accelerator Act, previsto para 28 de janeiro de 2026, deve fornecer definições sobre requisitos de conteúdo local para veículos produzidos na UE, elemento considerado crucial para reduzir dependências estratégicas e fortalecer fornecedores europeus de componentes.
Estudo da Roland Berger comissionado pela CLEPA alerta que, sem ação urgente da UE, até 23% do valor agregado europeu está em risco até 2030 devido ao efeito combinado da transição de powertrains, deslocalização da produção e concorrência global. Esse cenário poderia colocar 350 mil empregos em risco até 2030.






