Indústria europeia de autopeças anuncia 104 mil cortes de emprego em dois anos

15 de janeiro de 2026 5 minutos
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A indústria europeia de componentes automotivos registrou 104 mil cortes de emprego anunciados entre 2024 e 2025, segundo dados da CLEPA, associação que representa o setor no continente. O número, equivalente a aproximadamente 142 empregos perdidos por dia, supera as demissões anunciadas durante a pandemia de Covid-19 e evidencia as pressões estruturais enfrentadas pelos fornecedores.​

Em 2024, foram anunciados 54 mil cortes de emprego no setor de fornecimento automotivo. Em 2025, outros 50 mil cortes foram anunciados, acompanhados pela criação de apenas 7 mil novas posições, número insuficiente para compensar as perdas.​

A natureza das demissões passou por transformação significativa. Entre 2020 e 2024, a maioria das perdas de emprego resultou de reestruturações internas, representando quase dois terços das reduções, enquanto fechamentos e falências correspondiam a 22% dos casos. O cenário mudou em 2025, quando fechamentos e falências passaram a representar 44% dos cortes, equivalendo a quase 10 mil empregos.​

No início de 2025, 57% das perdas foram atribuídas a falências ou fechamentos de fábricas, com pelo menos oito plantas ou empresas encerrando operações na Europa desde janeiro, incluindo o caso da Northvolt.​

Fatores estruturais pressionam fornecedores

A demanda por veículos na Europa mantém-se abaixo dos níveis históricos. Em 2025, a União Europeia produziu aproximadamente 3,1 milhões de unidades a menos que em 2019, uma queda de cerca de 20%. Apesar do crescimento de 23% na produção de veículos elétricos entre 2024 e 2025, o volume total de EVs produzidos (3,3 milhões de unidades) ficou significativamente abaixo dos 4,8 milhões projetados em 2023.​

A competição com fabricantes chineses intensificou-se substancialmente. Pela primeira vez, a União Europeia registrou déficit comercial em componentes de nova mobilidade de €1,4 bilhão na primeira metade de 2025, após superávit de €4,4 bilhões no mesmo período de 2024. As importações de baterias pela UE atingiram €11 bilhões no primeiro semestre de 2025, o dobro dos €5,5 bilhões registrados no mesmo período de 2022.​

A transição para veículos elétricos apresenta desafios adicionais. Componentes tradicionalmente fabricados na Europa, como peças de motor, sistemas de combustível e sistemas de escape, representam cerca de €230 bilhões em receita anual global e não são necessários em veículos elétricos a bateria.​

Fornecedores europeus enfrentam desvantagem de custos entre 15% e 35% em relação a competidores globais, principalmente devido a altos custos de energia e mão de obra, carga regulatória e estruturas fragmentadas.​

A lucratividade média dos fornecedores automotivos europeus tem diminuído nos últimos três anos. Em 2025, apenas um terço dos fornecedores esperava alcançar margens EBIT acima de 5% – patamar considerado necessário para sustentar investimentos de longo prazo, inovação e transformação industrial.​

Pesquisa CLEPA-McKinsey realizada no outono de 2025 indica ligeira melhora em relação a 2024: a proporção de fornecedores reportando prejuízos ou equilíbrio operacional caiu de 38% para 34%. No entanto, essa mudança marginal não sinaliza recuperação ampla, e as pressões financeiras subjacentes permanecem significativas.​

Investimentos e perspectivas para 2026

Os investimentos em projetos de veículos elétricos despencaram em 2024, com muitos projetos adiados, reduzidos ou cancelados, refletindo demanda mais fraca que o previsto. Grandes fornecedores como Bosch, ZF e Continental implementaram reduções significativas de pessoal, e a realocação geográfica da produção tornou-se estratégia recorrente, com transferências de França, Alemanha e Reino Unido para países de menor custo como Hungria, Polônia e Romênia.​

A Comissão Europeia anunciou em dezembro de 2025 o Pacote Automotivo, que substitui a proibição total de veículos a combustão em 2035 por uma meta de redução de 90% nas emissões de CO₂, com flexibilidade para uso de combustíveis renováveis e créditos para aço de baixo carbono produzido na UE. Benjamin Krieger, secretário-geral da CLEPA, reconheceu o avanço, mas enfatizou que “a implementação das propostas precisa ser pragmática e flexível”.​

O Industrial Accelerator Act, previsto para 28 de janeiro de 2026, deve fornecer definições sobre requisitos de conteúdo local para veículos produzidos na UE, elemento considerado crucial para reduzir dependências estratégicas e fortalecer fornecedores europeus de componentes.​

Estudo da Roland Berger comissionado pela CLEPA alerta que, sem ação urgente da UE, até 23% do valor agregado europeu está em risco até 2030 devido ao efeito combinado da transição de powertrains, deslocalização da produção e concorrência global. Esse cenário poderia colocar 350 mil empregos em risco até 2030.​

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